Gregório

Gregários e Gregários, obrigado por estar conosco em mais um programa.

Gregório

Nesse nós temos, do outro lado do Atlântico, a presença ilustre de Américo Silva, um ciclista que começou como amador, virou profissional, gestor de equipes, inclusive responsável pelo ciclo olímpico de Portugal e como empresário segue trazendo, junto com a Ana Paula, o Granfondo Nova York Brasil para Bento Gonçalves, para o estado do Rio e tivemos o prazer de nos conhecer em Bento.

Gregório

Inclusive eu devo a ele uma experiência única que foi estar no carro madrinha com ele e dar a bandeirada de saída do neutralizado e valendo a prova.

Gregório

Uma experiência inesquecível e que vai estar sempre no meu coração do Américo.

Gregório

Mas aqui a gente vai falar do seguinte, o Américo é uma testemunha privilegiada, estando na Europa e tendo competindo, o que que mudou no ciclismo nesses últimos 40, 50 anos?

Gregório

E o que que a gente via dos ídolos lá dos anos 80, o que a gente vê agora da época do Pogacar, do Van de Poel, do Henco.

Gregório

Essa é a nossa conversa aqui.

Gregório

Américo, câmbio, tudo bem aí em Portugal?

Américo Silva

Olá, tudo bem por aqui?

Américo Silva

Espero que esteja tudo bem com vocês também.

Américo Silva

Para mim é um privilégio estar aqui no podcast do Gregory Cycling.

Américo Silva

Um podcast que desde já quero dar os parabéns por todos os temas que vocês conseguem trazer às pessoas do ciclismo.

Américo Silva

Não é só os profissionais, é os profissionais, os amadores, aquelas pessoas que que praticam o ciclismo por lazer.

Américo Silva

Acho que é um excelente canal de informação e desde já queria dar-vos os vossos parabéns.

Gregório

Muito obrigado.

Gregório

E a Gregário é o convidado como, no caso, você hoje.

Gregório

É isso que dá a importância dela.

Gregório

Nós temos a nossa parte em pensar os convidados, mas o que faz o programa...

Gregório

Assim como no Pelotão, o Gregário apoia, mas quem ganha a prova é o líder, e o líder é você.

Gregório

Nisso, você viveu de dentro, na Europa, a Europa Ocidental, onde de verdade tem ciclismo de estrada competitivo no mundo.

Gregório

Não tem em outro lugar, nem mesmo nos Estados Unidos.

Gregório

O que mudou nos anos 80 era um grupo de pessoas com recursos muito limitados fazendo volumes de treinos gigantes, dependendo da cabeça de cada um, usando de substâncias para ajudar na performance, substâncias que eram ou não eram legais, e não vamos entrar nesse mérito, mas era uma coisa muito...

Gregório

eu usaria a palavra amadora, no sentido de pessoas apaixonadas que não estavam preocupadas em viver daquilo, em ficar rico fazendo isso.

Gregório

A gente vem para 2024, 2025, tem equipes que gastam 60 milhões de euros, que tem um service course, uma base, que tem uma frota de caminhões, carretas, carros, Quando você entra lá, parece quase que é um distribuidor de produtos de bicicleta.

Gregório

Performances que são impressionantes, como a gente viu o Pogacar esse ano.

Gregório

Conta pra gente, tudo mudou, mas destaca o que você acha que foi mais relevante dessa mudança.

Américo Silva

Ora, eu não sei qual é a imagem que o ciclismo a nível mundial tem no Brasil e qual é a opinião.

Américo Silva

Mas na Europa, inclusivamente aqui em Portugal, há uma imagem de que A grande evolução e a grande revolução que se fez no ciclismo de alta competição foi nesta última década, desde o momento que entrou a Sky com novas metodologias e tudo mais.

Américo Silva

Eu estou de acordo que houve um crescimento muito grande em termos daquilo que acabaste de falar, de toda a estrutura, estrutura que foi proporcionada através dos grandes investimentos de patrocinadores, mas também não é menos verdade que essa perceção que se tem desta grande evolução que existiu é muito da comunicação que hoje existe e que lá atrás, nos anos 80, e se recuarmos mais ainda, não existia.

Américo Silva

Ou seja, hoje em dia, através destas plataformas como a Roça, do Gregário, as pessoas têm muito mais informação sobre o que é o ciclismo profissional, sobre a realidade, sobre o que o ciclista treina, sobre o que o ciclista come, sobre o que fazem após as etapas, coisa que naquela altura não existia.

Américo Silva

Então as pessoas, ao não terem a informação do que se fazia naquela altura, dá a sensação que nestes últimos 10 anos houve assim um boom do ciclismo, tanto em termos de treino, como em termos de tecnologia, até podemos ir para o lado da táctica, mas no meu ponto de vista foi uma coisa global.

Américo Silva

Foi um assunto global que as próprias ferramentas que temos hoje foram-nos proporcionando que houvesse esse tipo de crescimento.

Américo Silva

O próprio ciclismo teve um crescimento gradual, que nos trouxe aos dias de hoje.

Américo Silva

Mas, por exemplo, no caso dos treinos, nós víamos que tanto nos anos 70 como nos anos 80 que eu competi, 80-90, os ciclistas começavam a ter o seu auge de maturidade a partir dos 24 anos.

Américo Silva

Tanto assim é que os dois grandes monstros do ciclismo mundial, até aparecer agora, o Tarja e o Pogacar, mas também outros, como o Van Der Poel, Mas, principalmente, estamos a falar do Pogacar, porque é um ciclista de grandes voltas, muito embora também se defenda e ande muito bem em todos os terrenos.

Américo Silva

Mas, no que toca às grandes voltas, nós vimos um Bernard Hinault ir para a Volta à França no seu primeiro ano com 23 anos.

Américo Silva

Um Eddy Merckx ir para a Volta à França com 23 anos.

Américo Silva

E porquê ir com essa idade?

Américo Silva

Porque se entendia na altura que era a idade de um ciclista entrar na maturidade.

Américo Silva

Hoje em dia vão com 20 anos, com 21.

Américo Silva

O que é que faz com que um ciclista consiga uma tal performance aos 21 anos e consiga ganhar uma volta à França com essa idade?

Américo Silva

É toda a informação que têm, mas também o controle que se consegue ter sobre o ciclista.

Américo Silva

Porque, por exemplo, nos meus tempos, nós tínhamos mais ou menos um plano de preparação, de treino, que estava depois ao nosso encargo.

Américo Silva

Ou seja, nós iríamos consoante as nossas sensações, consoando, digamos, a nosso belo prazer.

Américo Silva

E isso fazia com que aos 20 anos, aos 21 anos, Nós temos aqueles altos e baixos.

Américo Silva

Ah, eu hoje sinto-me cansado.

Américo Silva

Então eu não vou fazer isto porque estou cansado.

Américo Silva

Ah, hoje está a chover.

Américo Silva

Então eu não vou sair porque hoje está a chover.

Américo Silva

E assim, sensivamente.

Américo Silva

E até o rendimento nunca era aquilo que as nossas capacidades poderiam proporcionar.

Américo Silva

Hoje em dia, como há uma máquina que controla tanto os ciclistas com essa idade, fazem com que consigam tirar deles próprios as suas máximas capacidades.

Américo Silva

Ou seja, O ciclista tem um plano para fazer hoje.

Américo Silva

Vamos supor, tem 180 km para fazer hoje.

Américo Silva

Tem umas séries de não sei quantos watts a subir.

Américo Silva

Ou seja, todo um plano.

Américo Silva

O ciclista, se não estiver a realizar esse tipo de treino, vamos supor uma situação que eu acabei por me preparar quando estava com um ciclista de uma equipa do World Tour que parámos num café.

Américo Silva

Eu ainda hoje dou umas voltas de bicicleta, ando na casa dos 80 ou 90 quilómetros, séries não faço, como é lógico, mas acompanhei nessa parte de transição do treino.

Américo Silva

E parámos num café.

Américo Silva

Passado 10 minutos, o telefone toca.

Américo Silva

Dê ciclos.

Américo Silva

Era o treinador.

Américo Silva

Olha, o que é que estás a fazer?

Américo Silva

Ah, estou a tomar um café.

Américo Silva

Ah, mas já não chega 10 minutos para tomar um café?

Américo Silva

Ou seja, isto para dar a entender o quê?

Américo Silva

Que há um controle muito grande sobre o ciclista.

Américo Silva

E não é por opção dele dizer que hoje não vou treinar ou não vou fazer este plano porque me sinto cansado, mas porque o treinador diz, ok, sentes-te cansado porque realmente o organismo não assimilou, possivelmente não terás de fazer isto, mas pode-se dar a situação que aquele cansaço seja proporcionado pelo próprio treino e aquilo é o complemento de todo o programa que se vinha a seguir e sim tens de ir treinar cansado.

Gregório

Colocando, sublinhando o que você disse, até não muito tempo atrás, não tinha plataforma de você colocar treino como o TrainingPeaks, não tinha conectividade de celular ou de internet.

Gregório

Então, as metodologias de treino, você falou de Renault, de Mercs, há não tanto tempo atrás, eram muito feitas no papel e executadas por cada ciclista individualmente.

Gregório

E talvez ele tivesse um técnico que ele falava para o técnico, você fez tudo o que tinha que fazer?

Américo Silva

Fiz.

Gregório

Mas não tinha como o técnico saber da qualidade daquele treino.

Gregório

Na hora em que esse treino é subido, e como você mencionou agora, às vezes até o monitoramento em tempo real, o técnico sabe exatamente se aquele treino foi executado, com que qualidade e qual é a evolução que aquele atleta está tendo para o objetivo de performance na prova que ele vai competir.

Gregório

Coisa que no passado era uma coisa que o ciclista tomava decisão sozinho.

Gregório

quero, não quero, e eventualmente estava cansado, usava algum tipo de substância para negociar com esse cansaço, e fazia isso da cabeça dele, até que a gente teve, ali no começo dos anos 2000, a era Armstrong, onde isso fugiu completamente de controle, o que antes era uma coisa individual passou a ser uma coisa estruturada, quase de quadrilha, com o Ferrari e com tudo mais.

Gregório

Agora, talvez esse tenha sido um movimento importante de entender os limites éticos de cada coisa e o controle que a equipe tinha sobre cada atleta.

Gregório

Lembrando, e eu queria que você me comentasse, um atleta é um funcionário de um evento, que é um espetáculo, que tem patrocinadores.

Gregório

Então, não é uma coisa que, com você e eu, saímos pra pedalar e a gente faz o que a gente quer fazer.

Gregório

Tem um monte de compromissos associados.

Gregório

E eu acho que isso muitos de nós ciclistas, às vezes, ficamos frustrados com essa realidade.

Gregório

Mas a realidade é que, um, é um espetáculo que precisa ser divertido pra atrair patrocinadores, e que os elementos importantes desse espetáculo, mas não os únicos, são os atletas, que têm que ajudar que essa máquina toda funcione, em qualquer modalidade esportiva.

Gregório

futebol, beisebol, hipismo, fórmula 1, ciclismo.

Américo Silva

É isso mesmo.

Américo Silva

Agora, a juntar isto tudo, depois o que é que acontecia nestes anos 80?

Américo Silva

Inclusive, dentro da própria competição, era o ciclista que tomava a maior parte das decisões, porque não havia rádios, não havia comunicação, então havia uma tática.

Américo Silva

que era dada no início da corrida, e pontualmente, duas, três vezes no máximo, o carro ia lá, o diretor desportivo ia lá e alterava algumas coisas.

Américo Silva

Mas a maior parte das decisões eram os ciclistas que tomavam.

Américo Silva

E logicamente, Novamente aí entrava a maturidade ou a falta dela.

Américo Silva

Ou seja, com 21 anos, ninguém tinha tanta experiência nem visão de corrida para tomar as melhores opções em determinadas circunstâncias.

Américo Silva

E daí todo este tipo de maturidade só nos aparecer aos 23, 24 anos, porque já levávamos 3, 4 anos de alta competição.

Américo Silva

E era toda essa experiência que íamos adquirir nesses 3, 4 anos, se ajuntando em termos estáticos como em termos físicos, porque nós depois começávamos a nos conhecer a nós próprios.

Américo Silva

como ciclistas, a reação do nosso corpo e depois, logicamente, nos treinos e íamos acertando um bocadinho todo esse programa que nos era dado.

Américo Silva

com o que deveria ser o nosso rendimento.

Américo Silva

Hoje em dia, mais uma vez, com os rádios há, e até tem havido, como toda a gente sabe, uma crítica muito grande sobre o excesso de utilização dos rádios.

Américo Silva

Inclusive a UCI queria acabar com isso, anda a fazer um esforço muito grande para acabar com ou pelo menos em parte com a utilização dos rádios, para dar mais liberdade aos ciclistas a poderem pensar e serem eles próprios os donos das suas atitudes e das suas reações.

Américo Silva

dentro da corrida.

Américo Silva

Mas isso leva-nos a que, na realidade, os ciclistas com menor idade errem muito mais em competição do que os ciclistas muito mais maduros.

Américo Silva

E, novamente, vai aí as novas tecnologias que existem hoje, que proporciona todo o tipo de comunicação, de avaliação, que anteriormente não existia.

Gregório

Outra coisa pra destacar é que o diretor esportivo no rádio não tinha uma televisão assistindo à prova em tempo real.

Gregório

Então, ele tinha uma visão muito limitada lá na caravana do que estava acontecendo na prova pra orientar os ciclistas dele.

Gregório

Então, no passado, quando não tinha rádio e não tinha televisão, dependia do ciclista querer vir até o carro, porque ele não vinha sozinho, né?

Gregório

Então, querer vir até o carro pra receber uma instrução.

Gregório

E o diretor esportivo tinha uma visão limitada da prova porque ele estava ali na caravana vendo alguma coisa.

Gregório

na hora que ele tá vendo o sinal na televisão, na hora que ele tem um rádio pra falar com todos os ciclistas da equipe, e eventualmente até um celular pra ligar pro diretor esportivo de outra equipe e fazer algum tipo de acordo de, olha, eu te ajudo aqui, você tá brigando pela etapa, eu tô brigando pela geral, então me ajuda a neutralizar a fuga aqui, que não é legalmente permitido, mas que possivelmente acontece, tudo isso muda o que é a dinâmica da prova inteira.

Américo Silva

Totalmente, até mesmo porque o décimo carro, e normalmente são 20, são 20 equipas, o décimo carro já não vê quase a corrida.

Américo Silva

É preciso ser uma reta longa para estar a ver a corrida.

Américo Silva

E não se sabe o que é que se passa na cabeça da corrida.

Américo Silva

E o ciclista, As maiores informações têm que ser passadas quando a corrida vai mais rápida, que é onde tudo acontece.

Américo Silva

E não é nessa altura que a corrida vai a 50 por hora que um ciclista vai descer ao carro e vai perguntar, olha, e agora o que é que eu faço?

Américo Silva

Atacou fulano, atacou esta equipa, a outra, qual vai ser a minha reação?

Américo Silva

Não.

Américo Silva

Já foi.

Américo Silva

Ou tomavas a decisão na altura, ou já foi, não é?

Américo Silva

Hoje em dia não, hoje em dia é na altura, inclusivamente há ciclistas que têm uma capacidade muito grande de avaliação que eles próprios vão transmitido para o carro que se está a passar.

Américo Silva

Saiu este, este, este, este e este.

Américo Silva

Ou seja, porquê?

Américo Silva

Porque é que isso é importante?

Américo Silva

Porque nós temos outro aparelho, que é o Rádio Volta, que transmite para os carros tudo o que se passa na corrida.

Américo Silva

Quem ataca, quem não ataca, quem responde.

Américo Silva

Mas essa informação normalmente só vem quando, por exemplo, há uma fuga.

Américo Silva

Só vem quando a fuga já tem 30, 40 segundos.

Américo Silva

E quando são grupos grandes, quando têm um minuto.

Américo Silva

E por vezes, um minuto é muito tempo.

Américo Silva

E hoje em dia é muitíssimo tempo.

Américo Silva

Portanto, nós vemos fugas à falta de 50, 60 quilómetros com 30 segundos que não são apanhadas.

Américo Silva

O Pogacar ganhou o Mundial e nunca passou muito mais de um minuto e andou cem quilómetros fugido.

Américo Silva

Ou seja, só para termos a perceção do quanto representa uma fuga ir com dez segundos ou ir com um minuto, certo?

Américo Silva

E então se o diretor não tiver essa informação na hora que há alguém que ataca, alguém que é importante para ele tomar uma decisão de anular ou não anular a fuga, com um minuto, a corrida possivelmente já está perdida.

Américo Silva

Então, todos estes aparelhos, hoje em dia, para mim, foi a grande alteração que se fez, logicamente, com as estruturas.

Américo Silva

Agora, eu acho, só para não dizer que tenho a certeza, que A maior parte das coisas que se utiliza hoje em dia, por exemplo, em termos do que é a metodologia treino, a grande revolução não se fez nestes últimos 10 anos.

Américo Silva

A revolução fez-se nos anos 80 e início dos anos 90.

Américo Silva

O que acontece é que hoje em dia se põe tudo em prática ao máximo detalhe.

Américo Silva

porque as metodologias de treino começaram a aparecer em 1984, e o Álvaro acabou de mencionar aí um nome que foi bastante importante nisso, que foi o Ferrari e que foi o Conconi.

Américo Silva

Esta dupla que levou o Mozart, quando já estava numa altura de decadência em termos físicos e como ciclista, a vir vencer um recorde da hora, a vir vencer um Giro de Itália e a vencer uma Milan Saint-Rémy.

Américo Silva

porque foram eles que trouxeram novas metodologias para o ciclismo.

Américo Silva

Depois apareceu um tal de um suíço, um tal de Paul Kwashaly, que foi o treinador da equipa do Bernard Hinault nos últimos anos, foi também uma das pessoas que inovou muito.

Américo Silva

já deixou-se de passar do treino, que era simplesmente o andar de bicicleta, fazer quilómetros, horas e horas e horas, para passar a ser um bocadinho mais metódico as tais séries que se utilizam hoje em dia.

Gregório

Agora, Américo, deixa eu só fazer uma pausa.

Gregório

Quando a gente fala do nome do Ferrari, ele está muito associado ao EPO, à Lance Armstrong.

Gregório

Mas eu entendo que ele fez um trabalho muito importante, científico, de entender a fisiologia, entender a metodologia de treino.

Gregório

E a evolução do EPO foi essa busca dele de qual é o limite de performance que a gente pode entregar.

Gregório

sem entrar no aspecto ético ou moral.

Gregório

Simplesmente, como um pesquisador, como um cientista, a gente pode usar essa palavra, né?

Américo Silva

Precisamente.

Américo Silva

É lógico que, é assim, e eu estou à vontade de falar em relação a isso, o doping, infelizmente, aparece sempre muito ligado ao ciclismo.

Américo Silva

Por ser uma modalidade de endurança, por ser uma modalidade muito dura, sempre teve um ligado muito ao ciclismo.

Américo Silva

Mas a realidade é que o doping vem associado há muitos anos ao desporto em geral, desde os primórdios dos Jogos Olímpicos da idade da Grécia.

Gregório

Eu já mencionei algumas vezes, mas é porque eu gosto muito desse livro, que é o Spitting the Soup, e que ele menciona que, primeiro, o ser humano sempre usou substâncias, desde sempre.

Gregório

Então, opioides, canabóides ou a cocaína sempre estiveram disponíveis e sempre foram usados por pessoas em situações limites que precisavam de uma ajuda extra.

Gregório

Então, a Revolução Industrial, no final do século XIX, os funcionários das fábricas que tinham jornadas inumanas de trabalho quase escravo, usavam de substâncias para fazer aquela jornada.

Gregório

E a gente teve um outro programa recente.

Gregório

No meio da Segunda Guerra Mundial, os soldados usavam anfetaminas, os pilotos de avião usavam cocaína.

Gregório

formalmente ou oficialmente distribuídos pelas forças armadas, tanto dos aliados quanto dos nazistas italianos.

Gregório

Não tem novidade no uso de substância.

Gregório

Mas aí eu queria fazer um gancho que é o seguinte, essa evolução, e tem sempre um aspecto de saúde, porque o que leva a performance, mas coloca em risco a vida do atleta e, portanto, compromete o espetáculo como um todo, Eu acho que essa é a questão.

Gregório

Acho um pouco hipócrita dizer que estamos preocupados com a ética.

Gregório

É a beleza do espetáculo.

Gregório

E qual é o limite de performance que vai fazer aquilo?

Gregório

Porque se toda prova ficar igual, o público vai embora, os patrocinadores vão embora.

Gregório

Então tem que existir um nível de estímulo, um nível de desafio que torne aquilo interessante no tempo todo.

Gregório

E aí qual é o limite disso de que tem gente que morre no processo, tem gente que comete crimes no processo?

Gregório

Mas o ponto que eu queria ouvir a sua opinião é o seguinte, talvez nos anos 80, como você falou, a disciplina individual do atleta e quais os recursos que o atleta descobria de substâncias legais ou ilegais eram um diferencial competitivo, junto é claro, porque não adianta você pegar um pangaré como eu e dar tudo que eventualmente um atleta dessa geração tomava, Eu não vou andar igual a ele, porque eu não tenho o DNA dele, eu não tenho a cabeça dele, eu não tenho o sistema cardiovascular que ele tem, eu não tenho a endurance mental que ele tem.

Gregório

Então, Topping não faz milagre.

Gregório

Mas era um diferencial.

Gregório

Na medida que a ciência avançou.

Gregório

seja de nutrição, seja de estratégia de treino, seja de mensuração do atleta, o quanto essa diferença ficou menor.

Gregório

A gente tem um Pogacar esse ano que é fora da curva de tudo, é um ser humano excepcional e que possivelmente está usando de todos os recursos legais que a ciência permite, que a tecnologia e os recursos de suporte, mas para o resto do pelotão, o quanto o pelotão hoje está mais homogêneo do que ele era nos anos 80.

Américo Silva

Sim, e é assim.

Américo Silva

E no que toca ao Ferrari e a esses famosos amos com o Mozart, tem-se associado sempre o caso de ter sido, digamos, o pai da época no que toca ao ciclismo, e logicamente quando falamos no ciclismo, depois podemos abranger muitas mais modalidades.

Américo Silva

Mas não nos podemos esquecer que foi o Ferrari e o Conconi que levaram o Mozart para a altitude, a preparar-se na altitude, para ele bater o recorde da hora e não só.

Américo Silva

Ou seja, numa altura em que ninguém sabia qual era o efeito da altitude, eles já fizeram esse tipo de trabalho.

Américo Silva

E o que é que a altitude, na realidade, proporciona?

Américo Silva

proporciona o mesmo que este produto que estamos a falar, a EPO, sinteticamente.

Américo Silva

Ou seja, a EPO é em termos sintéticos, a altitude é em termos naturais.

Américo Silva

O efeito no organismo é o mesmo, certo?

Gregório

Que inclusive é notório público, a quantidade de training camps de altitude que os atletas profissionais fazem hoje uma série durante o ano todo.

Gregório

Não é só uma vez no começo do ano ou no meio da temporada.

Américo Silva

E eles, em 84 e 85, já fizeram esses estágios em altitude para preparar o recorde da hora.

Américo Silva

Ou seja, isto só para termos a ideia de quanto eles estavam avançados para a época, em todos os aspectos.

Américo Silva

Eles, inclusivamente, em termos...

Américo Silva

Isso não foi o Conconi, logicamente, foi outros engenheiros que estavam com o Moser.

Américo Silva

Eles não inventaram aquela bicicleta de conta-relógio que depois se tornou na famosa cabra.

Américo Silva

Eles foram buscar aquele modelo à RDA e a RDA e todos os técnicos da RDA, já não falando também da Rússia, da antiga União Soviética e da.

Gregório

Alemanha Oriental, a Alemanha Comunista.

Américo Silva

E da Alemanha Comunista também trouxeram uma forma totalmente diferente de treinar, inclusivamente com aparelhos muito mais rudimentares, como eram as bicicletas de contrarreloj que eles utilizavam, mas já com um sentido aerodinâmico muito mais à frente do que aquilo que nós tínhamos aqui.

Américo Silva

E o Mozart foi buscar isso, foi buscar, se formos ver fotografias do final dos anos 70, Vemos essa mesma bicicleta na Alemanha do Leste.

Gregório

Você traz um ponto muito interessante que é o fundamento de tudo que a gente está vendo agora em 2025 está lá em coisas que aconteceram em 1980.

Gregório

E você falou sobre metodologia de treino, sobre fisiologia humana, sobre aerodinâmica.

Gregório

Que outros aspectos a tua experiência mostra a semente do que a gente está vendo hoje está lá nos anos 80?

Américo Silva

Mesmo dentro da tecnologia, nós se formos ver a equipa Renault naqueles anos 80, vamos deparar que os quadros profilados aparecem nesses anos.

Américo Silva

Agora é o freio de disco, mas o antigo freio que todas as bicicletas até há pouco tempo utilizávamos, eles começavam a utilizar o freio atrás da forqueta, do garfo.

Américo Silva

O Inú usava isso no contrarreloj.

Américo Silva

Quadro profilado, freio atrás do garfo, o guiador, vocês chamam-lhe o...

Gregório

O guidom.

Américo Silva

O guidom, sem ter a fita ao completo para tirar peso, já sem os cabos de freio.

Américo Silva

Ou seja, toda essa evolução houve com essa equipa, ou começou mais com essa equipa.

Américo Silva

Porque inclusivamente eles tinham, estavam associados à própria Renault fábrica que trabalhava em termos da aerodinâmica por causa dos carros da Fórmula 1, e eles aproveitaram muito esse trabalho da Fórmula 1 já nessa altura para começarem a melhorar em termos do que era o aerodinamismo nas bicicletas e tudo mais.

Américo Silva

Uma das coisas que se alterou em termos da bicicleta, logicamente, pois veio o carbono, veio o titano, veio o carbono, veio dar uma rigidez muito maior às bicicletas e tudo mais.

Américo Silva

Mas a posição na bicicleta alterou.

Américo Silva

E alterou porquê?

Américo Silva

Porque nos anos 80, a frequência de pedalada andava a rondar os 60, 70 pedaladas por minuto.

Américo Silva

Hoje anda em 100, 110.

Américo Silva

Daí, na altura, a posição na bicicleta era uma posição mais recuada, ou seja, se for a reparar, os ciclistas sentavam-se muito mais atrás do pedaleiro do que é hoje em dia.

Américo Silva

Hoje em dia pedalam muito mais em cima do eixo pedaleiro.

Américo Silva

Por quê?

Américo Silva

Porque a frequência pedalada ao ser muito maior, para se conseguir essa frequência pedalada, tem que seguir muito mais para cima do eixo pedaleiro.

Gregório

E voltando a falar de tecnologia, nessa época eram 5 marchas, a maior que você tinha atrás era uma 21, não tinha o compacto, então o RPM era ligado a que tipo de relação você tinha.

Gregório

Eu pedalei nessa época e lembro de que conseguir, na verdade eu era 19, porque conseguir uma relação com 21 atrás já era uma coisa dificílima.

Gregório

E eram as mesmas subidas que se faz hoje, no mundo inteiro.

Gregório

Eu era 39, era 42.

Gregório

e era 42.

Gregório

Então, assim, era uma relação muito mais pesada, porque era a única que tinha.

Gregório

Então, o seu RPM estava ligado a quanto você conseguia fazer de força, de forma sustentada, com aquela relação.

Gregório

Na hora que você vai para relações mais leves, tanto no K7 quanto no Prato, e na hora que você tem mais marchas, das 5 chegando hoje a 12, 13, você tem outro tipo de biomecânica do que o ciclista precisa fazer para desempenhar aquela velocidade.

Américo Silva

Claro, claro.

Américo Silva

E no treino, por exemplo, eu estava a lembrar aqui de outra situação, que foi já depois da queda do Berlim, que eu fui para um estágio, nessa altura um estágio em altitude, mas ainda sem a noção do que é que fazia o estágio em altitude.

Américo Silva

Em dezembro, concentrávamos várias equipas no sul de Espanha, em Serra Nevada, fazíamos três treinos por dia.

Américo Silva

O primeiro era em junho.

Américo Silva

o segundo era depois do pequeno almoço e o terceiro era a seguir o almoço mas novamente esse tipo de treino foi foi-se buscar técnicos da RDA, porque a Espanha, quando caiu o muro de Berlim, como a Espanha teve as Olimpíadas de Barcelona em 90 e...

Américo Silva

92, salvo erro?

Gregório

Pode ser, anos 90.

Américo Silva

Eles foram buscar técnicos da RDA para preparar a pista.

Américo Silva

E foram buscar técnicos espanhóis para se juntar e beber um bocadinho do conhecimento dos dos técnicos da RDA.

Américo Silva

E aí foi também um bocadinho o boom do ciclismo espanhol, inclusivamente.

Américo Silva

A Espanha não tinha histórico nenhum, tal e qual como Portugal até há 10 anos atrás não tinha histórico em termos do que era o ciclismo de pista, e nessas Olimpíadas conseguiu várias medalhas no ciclismo de pista.

Américo Silva

mas foi a esses técnicos da RDA que vieram proporcionar uma nova forma de preparar, treinar, que nós nesses anos começámos também a utilizar, que era fazer exercício físico em jejum a baixa intensidade, para ensinar o organismo a queimar de preferência gordura para fazer determinados esforços, e já toda uma metodologia.

Américo Silva

Por isso é que eu digo, esses anos 80, a princípio dos anos 90, foi na realidade a grande revolução.

Américo Silva

E eu vejo hoje em dia, por exemplo, hoje em dia, e começou com a Sky, a equipa Sky e Ineos hoje em dia, a começar a fazer, a seguir as competições, o andar em rolos durante 10, 15 minutos.

Américo Silva

Nós, nos anos 90, já tínhamos esse conhecimento.

Américo Silva

Eu cheguei a fazer isso, mas por autorrecriação, porque tinha esse conhecimento e queria-me dar ao trabalho, mas ninguém me obrigava a fazer isso.

Américo Silva

E a maior parte dos ciclistas não fazia.

Américo Silva

Porquê?

Américo Silva

Porque não havia ninguém a controlar.

Américo Silva

Havia uma maior liberdade, tanto que houve-se frequentemente ciclistas da minha geração dizerem que os ciclistas hoje não se divertem como nós nos divertíamos.

Américo Silva

Porque nós tínhamos a liberdade de fazer as coisas ou de não fazer, consoante a nossa própria opinião.

Américo Silva

que o rendimento não era, como eu disse lá no início, aquilo que poderia ser se nós fizéssemos as coisas como se faz hoje em dia.

Gregório

Então, mas na tua experiência nos anos 80, uma equipe profissional de ciclismo que corria as grandes voltas, ela tinha quantas pessoas nela?

Gregório

Versos hoje que são...

Gregório

Então, eu chutaria 10, 20 pessoas, do que hoje devem ser umas 200 pessoas ou mais.

Gregório

Mas, figurativamente, a conta seria essa, quer dizer, nos anos 80 uma equipe grande tinha 20 pessoas, hoje uma equipe grande tem 200, 300 pessoas?

Gregório

Sim, precisa mesmo.

Gregório

E o que vem junto é que você precisa de mais patrocínio, então você tem mais pressão do patrocinador de produzir resultado.

Gregório

Então, essa pressão vai em todo mundo da equipe, desde o mecânico que lava a bicicleta ao ciclista que está vestindo a camisa.

Américo Silva

Claro, claro.

Gregório

Agora, Mérico, uma coisa que não mudou é que o ciclismo, a equipe, as grandes equipes, inclusive, continuam dependentes de ter um patrono, de ter um mecenas.

Gregório

Não é um negócio que elas conseguem ser uma equipe muito lucrativa por si.

Gregório

E a gente observa as grandes equipes, a gente está vendo agora a Ineos, que possivelmente o patrono, que era o dono da Ineos, ou na época da Sky, o Murdoch, que possivelmente ele se desinteressou para o ciclismo, está mandando cortar o orçamento e a equipe está quase que desfacelando.

Gregório

Quem já foi o estado da arte de performance da Sky, a Ineos no começo, e eu não acho que só isso, e eu não tenho informação, mas A minha pergunta pra você é, duas coisas não mudaram.

Gregório

Primeiro, é o talento de um ciclista, um atleta excepcional, um ser humano excepcional.

Gregório

E isso faz uma diferença fundamental.

Gregório

E na outra ponta, que precisa ter, entre aspas, um pai rico.

Gregório

Porque sem pai rico, não fica em pé.

Américo Silva

É assim.

Américo Silva

Sempre se disse que não há pessoas insubstituíveis, mas há pessoas que fazem a diferença e outras que não fazem tanto.

Américo Silva

A realidade é que a decadência desta equipa da INEOS começou no momento em que saiu de lá o manager-geral, que neste momento inclusivamente está à frente da equipa do Manchester United, porque o dono da Ineos também é dono do Manchester.

Américo Silva

E ele passou para gerir a equipa de futebol.

Américo Silva

E a grande cadência deles começou aí.

Américo Silva

Agora, Se foi só isso ou não, eu neste momento não tenho muitos dados para o afirmar, mas a forma de trabalhar, logicamente, diverge muito de pessoa para pessoa.

Américo Silva

E ter havido aqui esta coincidência leva-nos muito a pensar que, na realidade, a pessoa que neste momento está à frente da equipa.

Américo Silva

Porque uma equipa não é só orçamento, não é só profissionalismo, é também gestão de egos, gestão de personalidades.

Américo Silva

E eu, que toda a gente gosta de assistir a tudo o que se passa um bocadinho dentro das equipas, vi que, na realidade, não há uma mão forte dentro da INEOS.

Américo Silva

Eu vi o ano passado, naquele programa da Netflix, alguns ciclistas, nomeadamente o Pidcock, que agora acabou por sair, de Ineos, não responder às exigências e aos pedidos do diretor desportivo.

Américo Silva

Ou seja, que não cumpriu aquilo que lhe estava a ser destipulado.

Américo Silva

E quando um ciclista não cumpre o que é ditado por um diretor desportivo.

Américo Silva

As coisas aí já começam a não funcionar.

Gregório

Mas, Américo, eu quero voltar.

Gregório

Continua fazendo diferença o atleta?

Gregório

A primeira pergunta.

Gregório

Então, um atleta excepcional continua produzindo resultados excepcionais nos anos 80 e agora em 2024, 2025?

Gregório

Continua.

Gregório

E a segunda pergunta é, continua sendo necessário existir um patrono, alguém que tem uma paixão pelo ciclismo e que coloca um dinheiro quase a fundo perdido para que uma equipe de ciclismo profissional ou tour seja viável?

Américo Silva

Eu não creio que seja a fundo perdido e não acredito que todas estas equipas que têm orçamentos tão altos sejam apenas investimentos por paixão.

Américo Silva

Eu entendo que E estes grandes investimentos hoje em dia têm que ter sempre o retorno.

Américo Silva

Eu não vejo que uma francesa de Jou ou uma Lotto, estou a falar dos patrocinadores mais antigos do Eurotour, possivelmente os dois mais antigos, qualquer um deles tem mais de 20 anos.

Américo Silva

Uma coisa é a estrutura das equipas, como é o caso, por exemplo, da Movistar, que a estrutura tem sido sempre a mesma.

Américo Silva

O manager geral é o mesmo de há 40 anos atrás.

Américo Silva

E outra coisa é o patrocinador, ou seja, esta equipa, esta estrutura foi mudando de patrocinador.

Américo Silva

No caso da Française de Joux, está no ciclismo já, pelo menos há 30 anos que eu me lembro, e a Lotto também.

Américo Silva

Eu não acredito que estas empresas metam tanto dinheiro no ciclismo e que não vejam o retorno disso.

Gregório

O Pogacar hoje ou os outros ETs, eles são menos dependentes de uma decisão pessoal e tem mais benefício de uma série de conhecimentos, ciências e tecnologias que faz diferença na performance deles?

Américo Silva

No caso do Pogacar, É assim, são capacidades inactas, logicamente, que depois com o excelente trabalho que se vai tendo, vai tendo os resultados que tem.

Américo Silva

Mas eu acredito que o Paul Gancard nos Emirados, ou noutros Emirados qualqueres, o rendimento dele, iria ser mais ou menos parecido.

Américo Silva

Porque, é lógico, o trabalho é muito importante, o treino é muito importante, é importantíssimo, a alimentação é um fator que nós não mencionamos aqui, mas esse sim, que acho que é um daqueles que mais evoluiu nestes últimos anos, possivelmente nestes últimos cinco ou seis anos, onde houve um grande investimento também da parte das equipas, Mas primeiro que nada está aquilo a que nós chamamos o ADN Ou DNA, vocês chamam o DNA, nós chamamos o ADN Essa é a parte fundamental Sem isso, tudo o resto não serve para nada Tudo o resto só vem complementar e ajudar aquilo para o qual tu nascestes com umas capacidades totalmente diferentes de todos os outros.

Américo Silva

E depois, nós estamos aqui para, através de vários fatores, tentar tirar daquilo que tu tens o máximo.

Américo Silva

Mas sem esta parte, não.

Américo Silva

Por isso é que existiu um Merckx nos anos 70, nos anos 80, passamos por um Endurain que eu, felizmente, tive o prazer de correr na mesma época, um Armstrong.

Américo Silva

Portanto, para os que gostam e para os que não gostam.

Américo Silva

E agora, na realidade, o Paul Gacard, que veio novamente, inclusivamente sem esta sombra do doping, dar novamente um grande alento ao ciclismo, porque é, na realidade, um ciclista com uma qualidade extrema.

Américo Silva

E daí, cada vez mais, agora, as equipas do All Tour já não estarem a ir buscar ciclistas de sub-23, mas sim fazer a sua prospecção nas camadas mais jovens, nos júniores, nos ciclistas com 18 anos, e passá-los automaticamente para as suas equipas, porque começam aí a detectar os verdadeiros talentos e não deixar que eles, de uma certa forma, desapareçam aí numa fase mais obscura.

Gregório

Então a gente pode dizer, passados quase 40 anos e olhando para frente, continua existindo um motivo para a gente torcer, adorar e admirar grandes seres humanos que são grandes ciclistas?

Américo Silva

Totalmente.

Américo Silva

E eu até acho que neste momento, mais ainda que há 10 anos atrás, na altura da Sky, que o ciclismo estava um bocadinho cinzento, ou seja, tínhamos saído da era do Armstrong, dos problemas todos que existiram, e depois apareceu uma equipa Sky, uma toda poderosa Sky, que controlava todas as competições a seu belo prazer, mas que não havia brilhantismo, ou seja, controlavam até à falta de 3, 4 km, O Sr.

Américo Silva

Frume arrancava no final das etapas, chate naquele giro.

Américo Silva

tinha hoje ido perdido, e então acabou por fazer um feito no final da volta à Itália e ter dado a volta à classificação geral, mas até aí restringia-se a vencer nos contrarrelojos e na montanha arrancar ali nas partes finais.

Américo Silva

Hoje em dia, não.

Américo Silva

Hoje em dia, eu por exemplo, que sou na realidade um amante desde pequenino da modalidade, eu ia ver as etapas nos últimos 40 quilômetros.

Américo Silva

Também chegava porque se eu fosse ver um bocadinho antes, adormecia no sofá.

Américo Silva

Hoje em dia não.

Américo Silva

Hoje em dia eu tenho que ver desde o início porque não sei se o povo vai arrancar ao quilômetro zero, se vai arrancar o quilómetro 100 ou o quilómetro 50.

Américo Silva

Tem esta indecisão e tudo o que é a competição em si torna-se muito mais atrativa.

Américo Silva

Nós vimos este último campeonato do mundo que a grande indecisão e a grande incógnita estava como é que o Pogacar ia ser campeão do mundo.

Américo Silva

Não era se ele ia ser campeão do mundo, era como é que ele iria ser campeão do mundo.

Américo Silva

Porque já se via, inclusivamente a corrida que ele ganhou no Canadá, que ele estava com tudo para ser campeão do mundo.

Américo Silva

Qual era a grande diferença?

Américo Silva

É que no Canadá, como no Giro, como no Tour, e todas as Clássicas que ganhou, tinha uma super equipa para levá-lo até ao sítio onde ele dizia, como aconteceu, por exemplo, na Cidade da Bianca, que ele disse antecipadamente um dia atacar.

Américo Silva

E atacou, e foi-se embora, e ganhou.

Américo Silva

Mas tinha uma equipa para lhe fazer esse trabalho.

Américo Silva

No Campeonato Mundial não tinha.

Américo Silva

Tinha uma seleção que podia contar com um, dois ciclistas, três no máximo.

Américo Silva

Não tinha sete gregários a trabalhar para ele.

Américo Silva

Então a incógnita estava aí.

Américo Silva

O que é que ele vai fazer perante esta circunstância?

Américo Silva

E o resultado foi esse.

Américo Silva

Um verdadeiro espetáculo de ciclo.

Gregório

Américo, falar sobre ciclismo é infinito.

Gregório

Um, pelo meu privilégio de ir trazendo aqui para os ouvintes da Gregário a sua experiência, a sua sensibilidade e a sua maturidade, estando aí no coração do que é o ciclismo de estrada, que é o continente europeu.

Gregório

E, com certeza, a gente já fez programas antes do Gran Fondo Nova York, que você e a Ana Paula organizaram, e a gente esteve junto lá em Bento, acompanhando e torcendo.

Gregório

Muitíssimo obrigado, vão ter outras conversas pra gente ter aqui.

Américo Silva

Eu é que agradeço.

Américo Silva

Um abraço a todos.

Gregório

Que tal ter um pôster com a arte desse episódio?

Gregório

As ilustrações do Woodson Malta podem decorar sua casa!

Gregório

Entre em contato com a gente e saiba mais!