Speaker A

Tem gente que fala que não vai mais fazer alguma coisa e eu me incluo nessa lista e acaba mudando de ideia quando acontece uma coisa especial.

Speaker A

E junto comigo tem uma pessoa por quem eu tenho enorme admiração e carinho, que também está fazendo uma coisa parecida.

Speaker A

Eu estou voltando a gravar um podcast que em novembro eu falei que não gravava mais.

Speaker A

E tem aqui, excelentíssimo senhor, Henrique Alvancine, o maior ciclista da história do Brasil, mais bem sucedido, e que eu tô aqui suando em São Paulo.

Speaker A

Henrique, você tá onde?

Speaker B

Eu tô aqui congelando.

Speaker B

Agora tô quentinho, tô dentro do quarto de hotel, mas passei um bom frio hoje treinando aqui na Eslovênia.

Speaker A

Então peraí, Eslovênia, eu achei que você ia te ver em Taipava aqui no Carnaval, ali no maravilhoso Hortências e tá aí você na Eslovênia.

Speaker A

Conta essa história pra gente.

Speaker A

Como é que você chegou aí e o que aconteceu pra você estar hoje em pleno Carnaval brasileiro na Eslovênia?

Speaker B

Essa tua introdução aí foi muito comprometedora, né?

Speaker B

Poxa, eu tô aqui encarando uma nova empreitada.

Speaker B

Falei contigo, não sei se eu chamo de retorno.

Speaker B

porque não é bem um comeback, não é bem um retorno, mas estão encarando uma empreitada, acho que muito motivada por um desejo pessoal, mais do que qualquer outra coisa.

Speaker B

Acho que de tudo que eu fiz, dentro do que eu posso chamar carreira envolvida com o ciclismo, acho que esse é o projeto ou a coisa que eu estou fazendo que é mais motivada por um desejo meu, por um sonho meu, do que qualquer outra ambição, compromisso, meta, missão.

Speaker B

Acho que é uma coisa muito de mim para mim mesmo.

Speaker B

Ponderei bastante.

Speaker B

É uma coisa que, em minha defesa, já existia possibilidade, até mesmo no momento Quando eu anunciei a aposentadoria, o final da minha carreira, é uma coisa que eu deixei na gaveta durante um tempo para ver, para ponderar, e agora está prestes a ser concretizado de fato.

Speaker B

Quase 500 dias depois eu volto a botar um numeral na camisa.

Speaker A

Você sabe que teve um cheiro de fumaça, eu fui passar o Ano Novo ali, Taipava, e fui visitar a loja que eu não tinha e ir conversando com o Rui.

Speaker A

O Henrique, ah, ele saiu pra fazer um treino de seis horas, hein?

Speaker A

Aposentado fazendo treino de seis horas?

Speaker A

assim, alguma coisa vem por aí.

Speaker A

Agora, o que que é?

Speaker A

Assim, a gente tá aqui dando volta, mas falando, primeiro, qual é a modalidade que você tá voltando, porque você teve a sua história lá atrás, em estrada, eventos maravilhosos que fez estrada, a histórica atuação lá no Le Tap de Campos, e uma carreira sólida mundial, que nos honrou muito no mountain bike, e o que que vem por aí agora?

Speaker B

Bom, volto a competir na estrada.

Speaker B

Competir na estrada é um sonho muito antigo meu, de infância.

Speaker B

Eu acho que assim, eu sou mountain biker, eu amo andar de mountain biker.

Speaker B

É a modalidade que eu tenho uma conexão de alma.

Speaker B

É a bike que eu gosto de passar mais tempo, quando eu tenho oportunidade e tudo mais.

Speaker B

Mas o gosto por competição, que veio da estrada, cara.

Speaker B

Então é uma coisa que vem muito do coração mesmo, assim.

Speaker B

Quando eu era criança, 8, 9, 10 anos, o meu primeiro contato com o mundo de competição de ciclismo foi assistindo as grandes voltas, cara.

Speaker B

Assistindo provas de vídeo, VHS, na época ainda, que amigos emprestavam e tudo mais.

Speaker B

Eu ficava vendo e assistindo aquilo repetidamente.

Speaker B

E isso é uma coisa que nasceu nessa época, depois adormeceu dentro de mim, ficou de lado durante algum tempo, chegou um tempo na minha carreira que eu cheguei a considerar, quando o ciclismo de estrada aparentemente estava mudando bastante.

Speaker B

Enfim, eu achei que era uma coisa que sinceramente eu não viveria, não teria mais a chance de viver, de experimentar.

Speaker B

E em meados do ano passado, em meados de 2024, foi quando eu comecei a realmente tomar as ações para tentar viabilizar alguma coisa, ou pensar, ou falar com uma equipe, com outra, com uma pessoa que eu conhecia.

Speaker B

E aí foi quando eu senti, pô, na minha idade, se eu quiser realmente viver, desenterrar esse sonho aí, agora é a hora.

Speaker A

E como é que andam teus números, sem entrar em detalhe da sua confidencialidade atlética, mas como é que andam seus FTPs, CTLs, nessa pausa de algumas centenas de dias?

Speaker B

Em 2024, cara, o que aconteceu ao longo do ano?

Speaker B

Em 2024 eu rodei mais do que em 2023, e eu rodei mais do que em 2022.

Speaker B

Em 2022 e 2023, Foram duas temporadas que eu lidei com algumas lesões.

Speaker B

Principalmente em 2023, com os problemas dos joelhos.

Speaker B

Então, 2024 foi um ano que eu só rodei.

Speaker B

Eu não estava treinando de forma estruturada e tudo mais.

Speaker B

Treinava com os meninos da equipe Calói.

Speaker B

Treinava com a galera e tudo mais.

Speaker B

Só que fazia alguns desafios pessoais.

Speaker B

Gravei alguns conteúdos e tudo mais.

Speaker B

E aos poucos, ficando mais saudável, o corpo estava até ok, com números assim de, poxa, se eu treinasse agora, talvez eu responderia bem.

Speaker B

Mas é sempre uma incógnita.

Speaker B

Nos 35 anos, o corpo passa por algumas alterações e tudo mais, é diferente.

Speaker B

Quando eu tomei a decisão, eu fiquei alguns meses ponderando, falando, analisando as possibilidades, vendo o que era real, o que era factível.

Speaker B

E aí, óbvio que tem que considerar que eu sou um cara já com uma idade avançada, porque a média hoje do pelotão mundial atual, que rejuvenesceu demais.

Speaker B

Eu sou um cara já quase 10 anos mais velho do que a média, vindo do mountain bike, de uma outra modalidade, sem, de fato, grande experiência na estrada, e não ativo, aposentar.

Speaker B

Então, sair de um período de inatividade é completamente diferente do que só transitar de uma modalidade para outra.

Speaker B

E aí eu voltei a treinar, cara, e as primeiras semanas foram chocantes, quando eu realmente comecei a treinar de forma estruturada e tudo mais.

Speaker B

é diferente e tudo mais, então foi um pouco difícil começar a perceber a evolução.

Speaker B

Eu comecei a treinar em dezembro de forma estruturada, eu já estava rodando, e aí só descansei ali uns 3, 4 dias para dar uma resetada e comecei a Comecei a treinar, de fato.

Speaker B

E aí, com umas 5, 6 semanas, foi quando o corpo começou a assimilar também a posição, o novo tipo de treinamento.

Speaker B

Comecei a perder muito peso, pelos estímulos serem diferentes.

Speaker B

Então, sem nenhum esforço, cara.

Speaker B

Isso é uma coisa assim que...

Speaker B

Com o meu motor, o meu treinador falou, cara, se você chegar no 65, 66 para competir, o teu desempenho vai ser muito bom, numericamente falando só, você vai estar em um nível muito bom mostro.

Speaker B

Mas eu considerei, cara, não vou conseguir ser 4 quilos mais leve do que eu era absolutamente circo.

Speaker B

competindo em alto nível para ganhar a Copa do Mundo, eu competia com 69, 68, dentro da casa de 68, quando a galera me via completamente seco.

Speaker A

Em 35 anos o corpo se transforma, você voltar para esse peso é quase impossível porque o corpo tem outro desenho.

Speaker B

É, e aí acabou que naturalmente eu fui perdendo peso aos poucos, principalmente upper body, os braços foram Foram dando uma leve enxugada, os homens foram ficando um pouquinho menores.

Speaker B

Então foi até bastante natural essa transformação.

Speaker B

E, cara, eu cheguei nos números muito bons.

Speaker B

Tenho alguns contatos e tal, principalmente o meu treinador, e hoje o Ken é o meu team manager também.

Speaker B

uma conexão muito profunda assim no pelotão aí o último teste de campo que eu fiz aí eu mandei os dados para os caras e tal aí já algumas equipes falaram não vem treinar com a gente que vão fazer os testes de campo para ver se é isso mesmo mas aí eu estou mais calmo agora vamos passo a passo mas tá bom.

Speaker A

Até saíram queimando largada colocando o teu nome em plataformas e não sei o que lá que eram obrigações né isso gerou algum tipo de boato agora vamos aqui qual é o nome da equipe é estrada que tipo de calendário você tá planejando para esse ano de 2025.

Speaker B

É bom eu faço esse retorno com um projeto que surgiu um pouco ao acaso para mim É uma equipe continental, ou seja, de terceira divisão, WorldTour, ProTour e Continental Europa.

Speaker B

É uma equipe baseada na Eslovênia.

Speaker B

Ela vem da origem de um clube muito tradicional, que é o Clube Kren.

Speaker B

Revelou alguns atletas bastante expressivos.

Speaker B

Acho que o principal é Matej Mohoric.

Speaker B

E passou a ser uma equipe ligada diretamente, ligada à fábrica, à empresa Factor, que é muito legal, tem sido muito interessante conhecer um pouco mais da marca, desenvolvimento de produtos, eles têm um background de engenharia, então acho que é uma marca que vem crescendo a imagem dela de forma muito natural e orgânica, pela qualidade dos produtos.

Speaker B

Então é muito aquela coisa do boca a boca mesmo, de quem anda na bike, acha que a bike é incrível e tal, e vai repassando isso.

Speaker B

Então tem sido interessante participar dessa nova fase da marca.

Speaker B

Hoje o diretor de marca é o David Miller, que era um dos caras que eu assistia no VHS.

Speaker B

Líder de todas as três grandes voltas, vencedor de etapa nas três grandes voltas.

Speaker B

Então tem sido interessante também lidar com ele.

Speaker B

É um cara que tem uma...

Speaker B

Acho que o drama que eu senti de fora, ele sentiu de dentro.

Speaker B

Enfim, acho que tem sido interessante conversar com ele, lidar com ele, trocar ideia.

Speaker B

E é um projeto muito legal, cara, com garotos novos, talentosos, uma equipe que tem esse misto aí de um pouco de desenvolvimento, mas também tem uma ligação de mais desenvolvimento de produto também.

Speaker B

Então, difere um pouco ali dos development teams, desses times de desenvolvimento que explodiram agora, mais recentemente, nos últimos três anos.

Speaker B

E tem esse misto de eu entrar na equipe como alguém para ser um pouco de mentor para os atletas, trazendo a experiência que eu tenho como atleta, mas sendo também, estando na posição de aprendiz, sendo o novato na modalidade.

Speaker B

A gente tem o Paul Reitz também, que é um atleta neozelandês bastante capaz, inclusive foi campeão nacional agora, do Nacional de Estrada, que é um país bem disputado, alguns nomes aí das grandes equipes, e vai ser o nosso capitão de estrada.

Speaker B

Então é uma possibilidade legal para mim de aprender de uma forma um pouco mais ampla o ofício, de poder ter papéis diferentes dentro do time, dentro das provas, A gente corre, obviamente, as provas continentais.

Speaker B

A gente começa o ano agora correndo na Croácia e na Eslovênia, no mês de março.

Speaker B

Então, é um mês mais cheio para mim, com 10 dias de competição no total.

Speaker B

A grande maioria de provas de um dia somente, com um nível bastante bom.

Speaker B

Para a continental, acho que é a melhor start list que a gente tem aí de começo de temporada.

Speaker B

Então, acaba sendo um teste legal e uma oportunidade bacana de eu entender dinâmicas de provas, que eu tenho que desenvolver muito percepção visual.

Speaker B

São coisas que eu comecei a trabalhar aos pouquinhos ali com a minha equipe de preparação para ir me adaptando, para ir entendendo a modalidade.

Speaker B

Então, para mim, é o mês de escola.

Speaker B

E aí, posteriormente, a gente tem a possibilidade de correr Inicialmente, o primeiro grande objetivo vai ser uma prova pró, que aí tem a chance de competir contra algumas equipes, o World Tour, algumas pró.

Speaker B

Então, esse vai ser o objetivo, que aí é mais para o final do primeiro semestre.

Speaker A

Você falou que você acertou um peso e principalmente membros superiores.

Speaker A

A estrada demanda menos de membros superiores que montam bike.

Speaker A

Você está levando essa consideração no seu trabalho de força fora da bicicleta.

Speaker B

Sim acho que é muito mais estresse de posição.

Speaker B

Então eu sempre andei muito na bicicleta de estrada mas óbvio que mudei um pouquinho a posição que é um pouco mais mais aero, então você sente um pouco de pescoço, cervical, a dinâmica de respiração muda muito também, tem um porquê de quando você pega a deformação de caixa torácica de um mountain biker para um cara da estrada é diferente, porque as áreas pulmonares ativadas são distintas também, isso até é um motivo do porquê que quando você pega as bikes de de contra-relógio, você vê que a posição começou a mudar um pouquinho, começou a torcer um pouco o eixo dos atletas, justamente para melhorar a eficiência fisiológica da respiração também, acho que esse é um dos principais pontos, mas muda bastante, você abaixa muito o tronco, limita um pouco a área de diafragma, você tem que usar um pouco mais a expansão lateral aqui das costelas, então tudo isso Cara, é adaptação, são pequenas coisas, mas se você tiver a ambição de performar bem, você precisa transferir o conhecimento e tentar se desenvolver no que há necessidade diferente.

Speaker B

Mas a parte de fortalecimento, de braço e tal, eu não preciso me preocupar.

Speaker B

Para a estrada, eu tenho de sobra.

Speaker B

fiz treinos de montanha em seis, sete, oito horas e tal, nas estradas do Brasil, que às vezes são um pouquinho mais...

Speaker B

batem um pouquinho mais.

Speaker B

Treino muito ali na Hortências, que é onde eu mais treino, que é concreto, então as placas de concreto sempre tem aquela vibração, não chega a sofrer os braços.

Speaker B

Cara, isso aí é pelo menos um ponto positivo que eu trago do mountain bike, é menos um ponto para se preocupar, para trabalhar essa parte de...

Speaker B

de resistência da isometria, né?

Speaker B

Mas aí, óbvio que a exposição, principalmente, cara, pescoço, assim, pra mim, pegou bastante nos primeiros meses.

Speaker B

Sempre treinei um volume muito alto e sempre rodei muito nas estradas, mas é diferente de você rodar, sei lá, três dias, cinco, seis horas e tal, e depois você ir pra mountain bike.

Speaker B

É diferente de você rodar 25 horas, 25 horas, 25 horas na bike de estrada e tal, porque chega uma hora que começa a gerar um outro tipo de...

Speaker B

de estresse né.

Speaker A

Como é que a sensação de botar o numeral nas costas de novo.

Speaker A

Depois que você falou assim nossa cansei férias e agora vamos botar o numeral nas costas e bandeirada.

Speaker B

Eu estou me sentindo muito renovado.

Speaker B

A sensação que eu tenho assim é que eu voltei a ser júnior sabe tem sido muito legal.

Speaker B

Todo o processo, para mim, de redescobrir, de me questionar, de ter que reaprender tudo, ser novato em alguma coisa, tem sido muito renovador para mim.

Speaker B

Acho que, para chegar nesse ponto, eu tive que conseguir deixar o ego de lado, que é aquela coisa do...

Speaker B

me aposentei como campeão mundial, vou futucar, correr de bike de novo, para quê?

Speaker B

Foi tão difícil chegar aonde eu cheguei depois, com todas as circunstâncias, chegar de novo e me aposentar com o título mundial nas costas.

Speaker B

Foi maravilhoso.

Speaker B

Os meus motivos para parar de competir no mountain bike, para mim, até hoje, são inquestionáveis.

Speaker B

Não é uma decisão que eu olhei para trás me arrependendo em nenhum momento.

Speaker B

É por isso que eu até falei no começo da conversa.

Speaker B

Para mim, eu não consigo considerar um retorno, Porque tem sido muito diferente pra mim, eu tô me sentindo um júnior.

Speaker B

Óbvio que eu tenho muita experiência como atleta, sabe, em certas coisas.

Speaker B

Tipo, vai fazer o lançamento de comunicação, produzir conteúdo, coletivo de imprensa e tal.

Speaker B

Pô, isso pra mim é uma coisa que...

Speaker B

é zero novo, não me dá nenhuma insegurança e tal, sei lidar com essas situações.

Speaker B

Mas a questão da competição, como vai ser e como é a preparação, o que eu tenho que mudar, o que eu tenho que estar atento, isso tem sido extremamente renovador para mim, está sendo muito legal, então eu estou muito animado de voltar a competir, mas principalmente competir numa modalidade nova para mim, de ter uma equipe, sabe, legal, voltada ali para mim, algumas provas.

Speaker B

É muito diferente, acho que eu não consigo lembrar a última vez que eu me senti assim no mountain bike, sabe?

Speaker B

Fazendo, até treinando, como sensação, treinando, de motivação, de empolgação.

Speaker B

Acho que durante muitos e muitos anos, e isso é uma coisa que eu julgo muito importante, eu fiz, me preparei, entreguei por comprometimento.

Speaker B

Mas a motivação era muito variável e depois de um certo ponto, estágio da carreira, é cada vez mais esporádico, principalmente quando você fica mais velho.

Speaker B

Acho que é por isso que quando eu olho para mim na situação atual, Atletas mais velhos às vezes tendem a perder performance, não é tanto fisiológico, mas os momentos perdem um pouco daquela chama, sabe?

Speaker B

do valor que a gente estava vivendo naquele momento.

Speaker B

E aí a gente vai ficando um pouquinho mais flat, mais temperado nas emoções.

Speaker B

E parece que eu resgatei toda essa coisa da novidade, da empolgação, de subir na bike nova e tal.

Speaker B

Estou testando equipamento e, sei lá, recebi o uniforme.

Speaker B

É diferente, o caramba, recebi uniformes novos tantos anos, mas a sensação é diferente.

Speaker B

Então, acho que tá muito mais ligado ao ponto mental do que físico, sabe, pra mim nesse estágio.

Speaker B

Mentalmente, pelo menos, eu me sinto muito leve, muito feliz, empolgadão com tudo que eu tô fazendo e com tudo que vem pela frente agora.

Speaker A

E você falou no começo que é pra você, e eu acredito sinceramente nisso, e uma das coisas que eu admiro da sua carreira é que você fez várias escolhas motivadas no que você acreditava, não no que ia te dar mais dinheiro, não no que potencialmente ia te dar mais fama, e me dá a sensação que esse teu movimento é pra você.

Speaker A

Não é porque você é aquele cara que tá ali deprimido no sofá, cadê o público, cadê o aplauso, cadê o cheque, até porque tudo isso é bom e tudo certo.

Speaker A

mas é de uma chama nova.

Speaker A

Eu acho que você, como um ser humano high performance, de um sucesso indiscutível, o maior ciclista brasileiro da história, de todas as modalidades, podia estar sentado lá com o sucesso que você tem da loja, com o trabalho do seu o seu pai junto, e vivendo dessa fama, assinando autógrafo, fazendo merchandising, e encarar isso, dar a cara a tapa numa equipe que vai ter que ter trabalho para ela acontecer, apesar de você estar dividindo aqui que tem os ingredientes absolutamente fantásticos, é a coragem e a iniciativa de fazer uma coisa que te brilha os olhos.

Speaker A

e que vai ser um outro Henrique.

Speaker A

Diferente do Henrique que a gente já conheceu.

Speaker A

E eu tenho uma grande admiração pelo teu gesto, sincera.

Speaker B

Obrigado, Álvaro.

Speaker B

Acho que você resumiu muitíssimo bem, cara.

Speaker B

É algo que...

Speaker B

Muitas coisas que eu fiz na minha carreira, eu sempre ponderei muito, assim, qual o bom vai ser para o esporte, o que eu tenho que fazer para ser melhor para o esporte.

Speaker B

E acho que eu, olhando para trás, tive uma carreira muito boa nesse aspecto.

Speaker B

Mas eu deixei muito as minhas vontades pessoais.

Speaker B

Ou eu me sacrifiquei bastante em alguns momentos de me expor mais.

Speaker B

Exemplo, eu corria muito mais no Brasil do que era necessário.

Speaker B

E era uma coisa que eu, sinceramente, não tinha nem o reconhecimento.

Speaker B

Eu brigava às vezes com...

Speaker B

com o meu gerente de equipe, porque o cara não queria que eu corresse prova no Brasil, porque para eles não fazia diferença nenhuma se eu ganhasse ou não, só que eu sabia que tinha um impacto na comunidade.

Speaker B

Então não tinha diferença para mim de salário, não tinha diferença para mim de absolutamente nada, a não ser o de gasto a mais que eu tinha.

Speaker B

E o estresse de estar lá ganhando uma prova, que eu só podia ganhar.

Speaker B

Se os provas do Brasil eu perdesse, era fracasso absoluto.

Speaker B

Outras coisas assim, inclusive, deixar de ir para o ciclismo de estrada, sabe?

Speaker B

Acho que chegou um ponto ali da minha carreira no mountain bike que eu considerei isso que eu trouxe para negociações, só que eu era um ativo muito importante para a modalidade, para as marcas com que eu trabalhava na época dentro da modalidade.

Speaker B

Então, Acho que essa coisa de crossover ainda era muito mais limitada, mesmo sendo poucos anos atrás.

Speaker B

A gente não podia nem ter duas licenças na época para duas modalidades.

Speaker B

Então não poderia correr igual hoje.

Speaker B

Alguns atletas estão fazendo, tanto masculino quanto feminino, tendo uma equipe de estrada, uma equipe de mountain bike.

Speaker B

Isso não era possível pelas regras.

Speaker B

E foi uma coisa assim que pô, eu ponderei e tal, não aconteceu.

Speaker B

Eu teria que sacrificar muito das coisas que eu estava fazendo para perseguir um desejo pessoal.

Speaker B

E aí sempre deixei um pouco essa vontade própria assim, mais de lado, para fazer coisas que eu considerava mais responsabilidade.

Speaker B

Não deixei as responsabilidades de lado agora.

Speaker B

Acho que quando eu tentei viabilizar isso, Eu tentei...

Speaker B

Isso, óbvio, que trouxe uma outra complexidade para tudo, mas eu quis manter tudo que eu vinha fazendo paralelamente ativo.

Speaker B

Então, isso gera, às vezes, conflitos de marca, uso de imagem, tarará.

Speaker B

Então, traz um pouquinho de...

Speaker B

Trouxe um pouquinho de complexidade, mas, graças a Deus, eu consegui passar essa barreira e ir atrás de uma coisa que eu queria, só que foi uma coisa que realmente chegou um determinado momento que eu decidi, pô, eu quero fazer isso, cara, porque eu sinto dentro de mim que eu tenho que fazer, eu sinto que eu mereço tentar, independente do que eu consiga realizar ou de onde eu consiga chegar dentro do que são do que são os meus planos nesse projeto de pouco tempo.

Speaker B

Acho que a viabilidade física, apesar de eu estar bem, não é de muito tempo.

Speaker B

Mas eu queria tentar, eu não queria deixar isso passar e ser uma pessoa que não tentou.

Speaker B

Eu tentei muitas outras coisas na minha vida que eram muito mais improváveis, que eu arrisquei muito mais.

Speaker B

Então eu falei, cara, por que não?

Speaker B

Se eu estou sentindo dentro de mim que é uma coisa legal de fazer, que eu tenho um bom motivo para fazer, que quem eu preciso que me apoie está me apoiando nessa escolha, então eu vou nessa.

Speaker B

Foi uma coisa que eu me preocupei bastante, principalmente com com segurar qualquer repercussão, então mantive muito, muito no sigilo.

Speaker B

Primeiro fiz o contrato de negociação, que faz o pré-registro lá na UCI, e aí a gente sabia que essa lista ia sair em algum momento, poderia sair antes de finalizar a negociação, que foi o que aconteceu.

Speaker B

E aí isso me preocupou bastante, porque não era uma coisa concreta ainda.

Speaker B

E aí eu, putz, cara, agora já começou todo mundo que me conhecia, e aí, e aí, e aí, pô, vai voltar mesmo e tal.

Speaker B

E aí eu, caramba, pô, tomara que agora tenha que dar certo mesmo, porque não queria dar essa banho de água fria, assim, nem que ainda goste de acompanhar alguma coisa, então.

Speaker B

Não queria dar essa desanimada na galera, graças a Deus.

Speaker B

Deu tudo certo.

Speaker A

Mas só torcida.

Speaker A

Agora, um desafio é a dinâmica de pelotão.

Speaker A

Até porque você morando em Itaipava, pelos volumes que você fazia.

Speaker A

Então, do ponto de vista de você como atleta, a tua experiência de mountain bike, seja nas modalidades de cross country ou maratona, É uma prova individual, não tem jogo de equipe, praticamente.

Speaker A

Então, essa dinâmica é uma dinâmica nova.

Speaker A

Não é novidade, porque você já viveu isso como júnior, você acompanha o ciclismo, tem amigos que pedalam, mas estar numa equipe WorldTour é uma brincadeira diferente.

Speaker A

Como é que você está vendo isso e o que você acha que você pode fazer a não ser a hora de voo para encaixar?

Speaker B

Ah, cara, acho que é muito...

Speaker B

É muito novidade para mim, sabe?

Speaker B

Eu não tenho essa...

Speaker B

Eu consigo ler bem corridas, acho que nas provas de Endurance, no mountain bike, conseguia fazer muito bem isso.

Speaker B

Mas é muito diferente a movimentação, a dinâmica de elasticidade, de pelotão, de leitura de corrida.

Speaker B

É completamente diferente.

Speaker B

Eu acho que a...

Speaker B

O ponto também de como os atletas encaram as competições é novo para mim.

Speaker B

Essa coisa da aceitação do que o desenrolar da prova sai muito do seu controle também.

Speaker B

Por mais que o cara seja experiente e tal a prova às vezes simplesmente não acontece por quem sabe mais.

Speaker B

Até por mais forte.

Speaker B

E isso é muito diferente no mountain bike porque no mountain biker você está um pouco mais sob controle do resultado, então não importa se o seu circuito é mais plano ou se sobe mais, se é mais técnico ou mais simples, se é mais veloz ou mais lento, se tá seco ou tá molhado.

Speaker B

Se você é um cara top, você tem que largar pra ganhar, independente do que aprova.

Speaker B

E na estrada não é assim, é uma dinâmica diferente que aceita mais possibilidades.

Speaker B

Então, quando você conversa com atleta de estrada e estrada somente, É muito notório que o entendimento e a percepção do que é uma corrida de bicicleta é muito diferente quando você conversa com um cara de mountain bike, sabe?

Speaker B

E acho que isso, para mim, é uma novidade.

Speaker B

Eu tenho que aprender a ter paciência, a ter tolerância, a flutuar dentro do pelotão também, de forma mais eficiente, de me encaixar nas formas certas, de ter algo que...

Speaker B

Eu até comecei a trabalhar um pouco com a Alessandra, minha preparadora mental de tantos anos.

Speaker B

A questão da percepção visual, de visualmente você conseguir captar mais coisas, o que é diferente do mountain bike, muito mais focado no que você está colocando a atenção, então você centraliza muito mais a sua atenção, no ciclismo de estrada tem que ser uma coisa um pouco mais ampla.

Speaker A

Olhando o pelotão, se posicionar para não ser pego num tombo, quando alguém que você está marcando pesou uma que vai atacar, é todo um xadrez diferente, que não é novo para você, mas você não vem praticando ele no nível de alta performance como você veio no mountain bike.

Speaker B

Eu considero, assim, eu estou encarando como algo novo para mim, sabe?

Speaker B

Eu considero indo para o dia 1 de aula.

Speaker B

Na quarta-feira, agora, eu largo a minha primeira prova e, para mim, é dia 1 de aula, a prova mais plana, a chegada em descida.

Speaker B

Então, primeira do ano para a grande maioria.

Speaker B

Acho que todas as grandes equipes de desenvolvimento estão na prova também, então tem esse misto de tem duas equipes pró, tem as equipes continentais ali um pouco mais...

Speaker B

dos caras mais velhos, tem essas equipes de desenvolvimento, então acho que vai ser uma corrida com um cenário perfeito para um pouco de caos.

Speaker B

E, cara, estou considerando que eu tenho que aprender do zero, sabe?

Speaker B

Acho que essa é, pelo menos, a minha mentalidade.

Speaker B

Eu não entro com essa...

Speaker B

nessa empreitada com a ambição ou com a percepção de que já sei bastante e é só me adaptar e tudo mais.

Speaker B

Eu acho que preciso aprender do zero a modalidade e depois o que eu conseguir trazer de experiência, de diferencial e tal.

Speaker B

Eventualmente, talvez eu consiga, sabe, construir além disso.

Speaker B

Mas acho que eu tenho que aprender do zero.

Speaker B

Tô entrando como se fosse um cara da Júnior indo pra primeira prova Elite agora, que é basicamente a verdade.

Speaker B

Um Júnior de 35 anos.

Speaker B

Não tem aquele filme virgem de 40 anos.

Speaker A

É isso.

Speaker A

Não, eu acho que a humildade e a consciência do desconhecimento específico, da prática.

Speaker A

Óbvio que na teoria não tem nada.

Speaker A

Henrique, fico feliz porque agregário é peba no mountain bike, então às vezes a gente achava forma de te convidar para o programa, agora tem mais chances de poder te convidar e você ter a oportunidade de aceitar.

Speaker A

E uma última pergunta.

Speaker A

Está tudo começando, está muito cedo, mas algum plano eventual de Los Angeles?

Speaker A

Olimpíada Estrada?

Speaker A

Tá muito longe, tem muita coisa pra acontecer.

Speaker B

É, acho que tá muito longe.

Speaker B

Quando eu falei da decisão pras pessoas mais próximas e tudo mais, eu falei com a minha irmã, que me acompanhou nos Jogos Olímpicos, tanto Rio quanto Tóquio, como minha fisioterapeuta, e aí eu falei com ela, Los Angeles então não joga os Olímpicos é uma coisa que não me traz muitas memórias da preguiça.

Speaker B

Mas não é sinceramente assim não é não é a minha ambição no ciclismo estrada sabe acho que eu busco muito mais experiências diferentes do que acho que eu acho que eu vivi no mountain bike acho que jogos olímpicos no fim das contas.

Speaker B

É uma coisa muito mais semelhante, seja lá qual for a modalidade.

Speaker B

Acho que eu tenho outros objetivos e tenho que ir cumprindo as etapas para ir aprendendo, desenvolvendo, conseguindo novas oportunidades, encontrando novas possibilidades.

Speaker B

E ver onde eu vou chegar, cara.

Speaker B

Acho que não dá pra fazer nenhum plano de longo prazo.

Speaker B

Sinceramente, até mesmo nesse ano, o que tá planejado é até final de junho.

Speaker B

Então, nem mesmo meu segundo semestre eu sei...

Speaker B

o que eu vou fazer, onde eu vou estar e tudo mais.

Speaker B

E eu estou indo etapa a etapa agora, vamos ver o quão rápido vai ser essa minha e quão eficiente vai ser essa minha curva de aprendizado.

Speaker B

Mas eu botei meu gráfico, eu me coloquei lá no zero zero, sabe?

Speaker B

No ponto de interseção lá.

Speaker B

Vamos sair daqui e vamos ver onde eu chego.

Speaker A

Não, mas você tem, sem dúvida nenhuma, a atitude, a experiência, e eu acho que essa é uma coisa, ao 35, você tem uma experiência e uma maturidade emocional que com certeza é um ativo, numa coisa que tem mais estratégia, que é a prova de estrada, do que a força bruta do mountain bike.

Speaker A

Claro que tem muita inteligência no mountain bike, não quero menosprezar, mas na estrada tem muita estratégia, maturidade, e eu acho que esse é um ativo que você tem de sobra.

Speaker A

Então, na torcida aqui, desfraudando as bandeiras brasileiras pra torcer por você, muito, muito obrigado pelo carinho de, aí, você, atrasando a sua noite de sono na Eslovenia, atender a gente aqui, e torcida sincera em minha nome, em nome dos gregários, em nome de todos os brasileiros que são apaixonados por ciclismo.

Speaker B

Valeu, Álvaro.

Speaker B

Obrigado pelo convite.

Speaker B

Essa semana sai a notícia agora.

Speaker B

Espero que traga um pouquinho de alegria.

Speaker B

Minha ambição é bem diferente.

Speaker B

talvez bem mais contida do que foi a minha carreira no mountain bike, mas eu espero que possa trazer, enfim, boas emoções e bons assuntos em torno da bike.

Speaker B

Espero que agora a gente possa falar mais vezes, acho que a gente vai ter bastante coisa para falar a respeito.

Speaker A

Vai ser um prazer.

Speaker A

Boa semana aí na Eslovênia.

Speaker A

Bom começo de temporada e com certeza a gente vai estar se falando mais e torcendo muito.

Speaker A

Obrigado Henrique.

Speaker B

Valeu obrigado.

Speaker B

Até a próxima.