Senhoras e senhores, ciclistas e ciclistas. Agora uma posição de referência, porque Dallae Blanco está conosco novamente, uma autoridade querida da cultura do ciclismo e do território sagrado da Bélgica, ilustrado aqui pela não saudosa, mas brilhante quick-step com a sua camisa de campeã mundial. Blanco, obrigado por estar com a gente mais uma vez, brincadeiras à parte.
Speaker BSempre um prazer enorme. Obrigado pelo convite.
Speaker AA gente pensou nesse programa vendo o segundo semestre do Renko e até um debate que começou a nascer, mas não sei se tomou muita perna, se o segundo semestre do Renko com Paris Mundial e o próprio tour dele, se eram suficientes para candidatar ele para o Vélodor num ano em que você tem, eu não diria que um cometa, mas talvez uma explosão de um buraco negro em todo o universo do ciclismo, que é o esloveno Tadej Pogacar. Vamos começar por aí. Renko fez sombra no Pogacar, com o segundo semestre dele?
Speaker BEu acho que não, eu acho que não. Pra mim, o Renko teve um ano emblemático na medida que ele fez feitos impensáveis, Jogos Olímpicos, é importante que o nosso público entenda. Os Jogos Olímpicos, historicamente, o ciclismo está presente, desde a primeira edição dos Jogos Olímpicos modernos. Porém, ele era um campo exclusivo dos amadores, que são ciclistas que hoje seriam o sub-23. que eram geralmente mais jovens, só os ciclistas da União Soviética, da Alemanha Oriental, do mundo comunista, que eram mais velhos, porque os outros não, do mundo ocidental não, com 23 anos o cara já estava profissional. Então, entenda como Jogos Olímpicos do mundo amador, equivalente ao sub-23 nosso de hoje. Bom, os ciclistas da chamada elite só foram participar dos Jogos Olímpicos em 1996, nos Jogos de Atlanta. E de lá pra cá é que nós temos um cara que corre o giro, o tour, correndo também os Jogos Olímpicos. Então, como é de 4 em 4 anos, é muito mais espaçado. Então, nós tivemos caras como o Ian Uryk, ganhando os Jogos Olímpicos, ganhando o contra-relógio do Mundial, ganhando o Tour de France. Mas assim, não é a regra. O Cancellaria, por exemplo, super ciclista de contra-relógios e de clássicas, também foi campeão Olímpico. de contra-relógio, mas o Remco fez o que ninguém tinha feito, que é ganhar a estrada, a prova em língua e o contra-relógio no mesmo ano. Fenomenal, fenomenal. E vindo da Bélgica e sendo um cara tão badalado, ele realmente o mundo dos ciclismos o reverenciou. Depois ele vem e é bicampeão mundial de contra-relógio. Algo que também nunca ninguém fez, que é ganhar o Mundial e os Jogos Olímpicos contra-relógio no mesmo ano. Então, brum, sendo bicampeão. Bicampeão Cancellara foi. Bicampeão Tony Martin foi no contra-relógio. Bicampeões mundiais. Mas aí o Remco vem e é bicampeão com os Jogos Olímpicos, dublê em Paris. É muito fenomenal. Mas quando compara com Tadej Pogacar, aí é outra liga. Porque o Pogacar, ele conquistou aquilo que em português se fala tríplice-coroa, e que os franceses que inventaram o termo chama-se grand-chelin. Grand-chelin. Que é ganhar o giro, o tour e o mundial. Ok. Ele ganhou, mas ele ganhou com mais panache, com mais exuberância, do que o Merckx em 74 e que o Stephen Roche em 87. Então nós tivemos 74 o Merckx, 87 o islandês Stephen Roche e agora o Tadej Pogacar. Eu tenho na memória aqui essas conquistas do Stephen Roche e do Merckx. A do Roth foi quase que uma zebra, vamos chamar assim. Ele era um grande ciclista. Mas ninguém esperava isso dele. Ele nunca tinha demonstrado motor para aquilo. Tanto é que foi o único tour, o único giro e o único mundial. As estrelas estavam todas, o universo estava, as constelações todas alinhadas a favor dele, e ele entregou. A história disso aí vale um programa só, porque teve uma ruptura dentro da equipe. Stephen Roth e o italiano Roberto Vincentini, os dois correndo pra equipe carreira, se desentenderam, porque o Vicentini vinha de ganhar o Giro 86 e achava que era o líder em conteste. O irlandês foi lá e ganhou a malha rosa dele no meio da prova. Metade da equipe rompeu com ele, que ficou tentando empurrar o Vicentini pra frente. Enfim, é uma história bacana, um ano bacana. O Tour, ele quase perde. Ele teve que usar máscara de oxigênio numa das etapas de montanha pra ele encostar no Pedro Delgado, que tava com a camisa amarela. Olha, é uma história linda. Bom, Pogacar, ele ganha seis etapas do giro, ele ganha seis etapas do tour, mete seis, oito minutos no giro, dez minutos no tour, ou vice-versa. Negócio fora do normal. Vem o Mundial e ele ataca de cem quilômetros. Depois ele encosta num grupo e Merckx mais 50 sozinho.
Speaker AEstrada Bianchi no começo do ano, ele falou aonde ia atacar, a 80 e poucos da meta, atacou lá e ninguém fez nada.
Speaker BE Álvaro, Liege, Baston e Liege, um monumento. O cara falou, eu vou atacar em La Redoute, atacou em La Redoute, fizeram fila atrás dele e tchau. Ele passou o Merckx. e o Stephen Roth, também pelo fato de quando esses dois fizeram a triplice-coroa, nenhum deles ganhou um monumento no mesmo ano. E ele ganhou um monumento. E é bem possível que ganhe na Lombardia também. Então serão dois monumentos. Mas vamos deixar Lombardia pra outro dia. Cara, é espetacular demais. Espetacular demais.
Speaker AAgora, como é que você, com seu conhecimento, carinho e autoridade, enxerga o Pogacar? O que faz esse ano dele ser tão espetacular, indiscutivelmente, de todo mundo falando? Talvez o grande desafio dele é a barra do que foi esse ano, e ele repete isso nos anos subsequentes, que é um alinhamento de planeta onde A cabeça dele estava boa, os concorrentes não tão ameaçadores, o treinamento, todas as decisões que ele tomou de pré-temporada, durante a temporada. Nenhuma lesão, não ter sido envolvido em um tombo. Então assim, essa combinação é rara e tem um monte de coisa que não está no controle dele, mas deu certo.
Speaker BMas é isso mesmo, acho que você fez a análise perfeita, né? Porque, vamos lá, nesse nível de competição que a gente está falando da elite, da elite, da elite, de um esporte... que vamos combinar, larga quase 200 numa prova. Ganhar um ouro olímpico em natação é maravilhoso? É. Com quantos tu competes? Com quantas baterias? Tênis nas Olimpíadas? Quantas rodadas tem pra tu chegar no ouro? Levantamento de peso, canuagem, escolhe. Futebol, meu, o ciclismo tem muito mais variável pra te tirar do jogo. É queda, é milhões de coisas. Então, o ciclismo, eu acho, na minha opinião, o de estrada, né? Eu tô falando de estrada, porque quando a gente vai falar de velódromo, é mais ou menos como os outros esportes. Tem três, quatro, cinco baterias e tu chega no ouro. Tem que tá tudo super perfeito? Tem. Mas são quatro, cinco caras que tu tem que ganhar. É diferente dos 180 do ciclismo. Então, assim, o aspecto físico, a biologia, naquele ano, ou naqueles grandes encontros, os rendezvous, né, do ciclismo, tem que tá tudo certinho no corpo. Não resfriou, não caiu, não teve lesão muscular, ou seja, treinou tudo como tá no caderninho. A cabeça, a confiança no limite. A equipe funcionou que nem um relógio, sejam os ciclistas ou por trás, né? Não teve intoxicação alimentar, não teve problema com a bicicleta. Ou seja, o cara foi entregue pra corrida no seu melhor estado e a equipe o ajudou, estando ela e a equipe também no seu melhor estado. Ah, mas e se fizesse isso igual pro Vin Van Cleef? não ia acontecer nada. O melhor Wim Van Kluyf, com a melhor equipe, não ia ser campeão de nada, porque o cara não é o Pogacar, né? Então tem que ser o super campeão, na sua melhor situação, com toda a sua volta funcionando direito. Os rivais estendo dias ruins ajuda também. E é normal, porque novamente meu esporte com tantas variáveis, que vai ter sempre alguém bichado. Já falamos aqui, os dois anos em que o Pogacar ficou em segundo pro Vingegaard. Num ano ele caiu, que eu não me lembro onde, e no outro ano ele teve a sogra que morreu. Foi uma preparação errada, visivelmente errada e atrapalhada. E deu no que deu.
Speaker AE do outro lado a gente olha o ciclismo feminino e o ano da Demi Wollering. E no Mundial, onde ela teve a equipe trabalhando pra ela com a excelentíssima senhora Mariane Voss. E a cabeça derrubou ela, como derrubou também na Vuelta. Então, uma atleta superlativa, com qualidades, talvez tenha feito uma atrapalhada histórica em decisão com o manager de carreira, em anúncia lá no começo do ano, que não ia ficar numa equipe que era uma classe acima das outras. Mas não é uma ciclista que se defende diferente do Pogacar que o Roglic falou não vou correr para ele. Então de verdade não tinha uma equipe da Eslovênia trabalhando para o Pogacar. Ele teve uma perda importante antes do Mundial. Então é alguém que é maior do que a equipe. É um esporte coletivo sem dúvida mas se tiver ou não tiver equipe não muda tanto para ele.
Speaker BVocê sabe né Alvaro eu sou bastante crítico nessa história de equipe. A maioria das pessoas dá uma importância pra equipe de ciclismo que vai além da real importância dela. Em certas situações o cara só ganha se a equipe salvá-lo. Às vezes é um furo, às vezes é um ataque de um rival que a equipe tem que ir pra ponta, às vezes é uma embalada pra sprint fenomenal, ok. Agora, existem situações que você pega o pogacha. Ele nunca precisava de equipe pra fazer o que ele fez? Não. Ele deve ter precisado de uns dois caras até, nos primeiros 150 quilômetros, onde a corrida ficou meio arroz com feijão, dar água pra ele.
Speaker ASabe?
Speaker BO resto, ele atacou sozinho.
Speaker ASó o aguadeiro.
Speaker BÉ, o aguadeiro, é verdade. Que é o que acontece, por exemplo, muita gente fala, se o cara correr sozinho, ele podia ganhar o Tour de France? Bom, ele ia ter que pagar, pagar mesmo, dinheiro pros gregários dos outros darem água pra ele. Porque se ele foi no pelotão dez vezes, no carro lá, ele morre. Depois, quando o pelotão dá aquelas mexidas e o ciclista tá na terceira roda, daqui a pouco ele aparece na trigésima, porque passou um pelotão do lado. Isso é uma coisa que eu já contei aqui, né? Que muita gente vê a corrida e não tá entendendo o que tá acontecendo. O pelotão, ele é um organismo vivo. O que dá mais trabalho, o que mais cansa numa corrida longa, é quantas vezes o cara que é um líder favorito, que tá lá na frente, ele vai lá pra trás. Como é que ele foi? O pelotão passou. Então, a equipe dele e ele mesmo tem que ser muito esperto. Só que tu ficar pulando em todas as rodas pra estar sempre na frente, cansa uma barbaridade. Então, o cara precisa de uma equipe pra mantê-lo na frente o tempo todo, o tempo todo. Agora, na montanha mesmo, lá em cima, O Gachara ataca de longe, ataca da segunda montanha. O cara é um ignorante, né?
Speaker AVocê acha, e aqui fazendo uma aposta de achismo, porque como a gente falou, tem um monte de variáveis, mas que ele tem chance de repetir em 25 o que ele fez em 24?
Speaker BÁlvaro, chance no sentido de probabilidade tem. Alta? Não, não. É baixa. Eu acho que é bem baixa. Porque conforme nós falamos esse monte de variáveis que tem elas têm que estar todas alinhadas para ele e desalinhadas de alguma forma para os outros. Então você pega o giro por exemplo ou uma vuelta que a vuelta está se provando mais difícil que o giro porque o giro como todo mundo que quer o tour tem medo de correr o giro e se machucar se cansar. O que a gente mais vê é que todo mundo que perdeu o tour quer ganhar o giro. Então assim o pelotão da vuelta perdão O cara que perdeu o tour quer ganhar a vuelta. Porque ainda é uma chance. O medo dos caras é correr o giro e se arrebentar no tour, chegar cansado. Então o pelotão do giro de Itália em maio, ele tá meio fraquinho. Ele não tá desafiador. Ele era bacana nos anos 90, quando tinha uma dúzia de italianos bons. Nenhum deles capazes de ganhar o tour, salvo Pantani. Então você tinha Ivan Gotti, Simone, Casagrande, Pantani mesmo. um monte de gente que brigava pelo primeiro, segundo, terceiro, tal, Savoldelli, a águia de Bergamo, ou seja, era muito cara, vários desses nomes que eu citei ganharam um giro de Itália, era um giro divertido, porque tinha um monte de briga das equipes italianas daquela época, tal, antes de ter esse conceito de World Tour, onde, puta, tem meia dúzia de equipes globais e a Itália não tem nenhuma, por exemplo. Naquela época tinha meia dúzia de italianas, né? Mas não, o que vai acontecer é que qualquer um dessa Remco ou Vingegaard o Roglic, um pouco menos, mas também, e o Pogacar. Esses quatro, quando correrem, o giro vão ganhar, seja lá quem larga junto. Bom, aí ganha o Tour, é outro departamento, né? É a corrida onde todos os melhores correm na sua melhor forma. É o que torna o Tour a prova mais complicada, porque não são as montanhas, né? Montanha mais elevada tem no giro. Mais chegadas no alto tem na vuelta. O Tour é aquele bem bolado que o que o torna espetacular são os corredores, são os ciclistas. Então, digamos que ele e o Vingegaard... Ele ganha do Vingegaard. Mas, puta, pra ele ganhar... Vai ganhar uma vuelta em seguida? Porque o Vingegaard vai chegar com raiva pra ganhar a vuelta dele? Ele ganha o Mundial. O Mundial é uma coisa muito peculiar, porque depende do percurso, né? Tem ano que é para ganhar o Tipo Olympia, como em 2012 em Zolder, na Bélgica, que era uma mesa de bilhar. E tem ano como este último, que foi uma ignorância de altimetria, ou aquele que ganhou o Valverde em... em Innsbruck, porque chegava no alto de uma flecha...
Speaker AO Glasgow ano passado, que o Vanderpool...
Speaker BO Glasgow foi terrível, não tinha montanha, tinha a cidade de Glasgow, que tinha aquele monte de rampa. Então, não, é muito improvável. Mas pode ter uma outra fisionomia, por exemplo. O Merckx chegou a ganhar giro, tour e três monumentos no mesmo ano. Ignorância. Ganhar três monumentos? Nenhum de nós viu. Só o Merckx. Nem eu vi porque eu não estava no ciclismo em 1972. Então, assim, isso ele pode fazer no ano mágico dele. Mas, meu, é difícil. É muito difícil.
Speaker AVocê que acompanhou, não assistiu tanto, até porque ao vivo era impossível até não muito tempo atrás, mas o Max, para informar os nossos ouvintes, o Max prescindia de equipe como o Pogacar prescinde de equipe? Ou seja, ter uma equipe forte ou não, não fazia tanta diferença para o Max quanto não faz para o Pogacar?
Speaker BOlha, Álvaro, olha que coisa curiosa. As equipes naquela época, por exemplo, no Mundial largavam 10 por seleção. E a seleção do campeão mundial anterior largava com 11, porque o próprio largava sempre, mesmo fora de forma largava. O Tour de France largavam 10, aí caiu pra 9, aí caiu pra 8, entendeu? Ou seja, as equipes eram maiores, mas o tamanho do pelotão também era menor. Por quê? Porque havia a cortina de ferro. Então, a União Soviética, que se eu não me engano era Rússia mais 14 países, alguma coisa assim, corria como União Soviética e só no Amador. Alemanha Oriental, Polônia, República Tcheca, Eslováquia e Eslovênia, tudo isso ocorrendo em uma dor. porque era proibido pelos governos. Os governos comunistas daquela época diziam que não havia esporte profissional nos seus países, porque aquilo era contra a filosofia, blá, blá, blá, do povo com saúde. Eles diziam que o povo lá era mais saudável e tal. E que esporte profissional era coisa de capitalista. Literalmente, eu não estou fazendo discussão ideológica. Era isso, é um fato. Então, o Merckx largava um campeonato mundial com 80 ciclistas. 90. 120, assim, explodindo. O Tour de France, a mesma coisa. 140.
Speaker A120.
Speaker BEram pelotões menores, porque faltavam países pra competir, né? Colômbia, por exemplo. Estados Unidos. Corria um ou outro americano. Um ou outro. Um negócio assim. Hoje em dia, não. É as dúzias, né? Então, a necessidade de equipe era muito menor. E, assim, O que eu estudei, e é questão de ser um estudioso do assunto. Eu tenho pilhas de revistas, você sabe. O Rino, todo esse pessoal dos anos 70, 80, eles atacavam de muito longe. Essa coisa de capitão contra capitão acontecia 100 quilômetros antes. Aí o cara ficava sozinho nos últimos 50, 40, toda etapa. Era raríssimo você ter um sprint do Ed Merckx com o Luciano Van Impey lutando pela liderança. Não, já era, já ficou pra trás há muito tempo. E as equipes? Isso é uma coisa interessante. Havia uma assimetria de conhecimento brutal naquela época. Vamos lá, não tinha internet, nem perto disso. Então assim, quando um cara... A ciência do esporte era muito rudimentar também. Então você tinha um determinado ciclista como o seu médico, como o seu preparador, que tinha lá suas poções mágicas, que não dividia com a equipe. Lembra muito a Fórmula 1, onde os dois carros, o engenheiro de um piloto não passa informação pro engenheiro do outro.
Speaker ASim, a garagem é completamente dividida.
Speaker BExatamente, segredo de Estado. Então assim, eu sei, porque eu sei, que o Ed Merckx tentava contratar os melhores gregários, Ele era um ditador com os gregários. Ele era humano, depois que acabava a corrida, dividia prêmio, mas na corrida ele arrancava a alma dos caras. Mas não tinha jeito, ele era tão forte. E ele se dizia, engraçado, eu sou inseguro, eu ataco de longe por insegurança. Imagina se tivesse segurança, né? É uma piada do cara. Ganhou 525 corridas, chegou a ganhar 52, 51, 53 no ano. Hoje a gente fala, o Pogacar já ganhou 24 já. Ok, falta o dobro pra chegar perto do Merckx num ano só, né? Mas tudo bem, naquela época corria 500 asquermesses e tal. Mas voltando, o fato é que as equipes de antigamente eram muito mais fracas, elas eram desiguais internamente. Tem um vídeo que eu acho que você já viu, que é aquele... como é que é o nome? Stars and Water Carriers. Já viu esse filme? Não. É um DVD de um giro de Itália. Water Carrier, carregador de água. Porque eram tempos tão rudimentares, estamos falando dos anos 70. O pelotão passando, tem cenas deles parando numa fonte, numa vila, que devia ter 500 habitantes. Os gregários todos param para encher caramanhola na fonte.
Speaker AAté porque junto com isso, o tamanho e orçamento das equipes era uma pequena fração do que é hoje. Era uma Kombi. Uma Kombi. Era uma Kombi. Hoje são uma frota de ônibus e vans e caminhões, que era uma Kombi. Então também não tinha um monte de gente da equipe espalhada pelo percurso pra fazer refil, pra conhecer.
Speaker BEra outro mundo, era outro mundo, muito, muito diferente. Então, respondendo a tua pergunta objetivamente, a equipe era muito menos importante e era muito mais fraca do que hoje. Hoje em dia a equipe é muito mais forte e muito mais importante. Na medida que a tua equipe rival é super forte, você vai dizer, não, vou sozinho. Difícil, né?
Speaker AE o fato da transmissão, e essa é uma coisa muito recente, talvez de dois anos pra cá, pós-Covid, da transmissão da prova na internet começar quase da bandeira inicial e mudar a dinâmica da prova, que era meio um passeio acelerado pra esses deuses, onde o pau comia a partir de 100, 80 quilômetros, 50 quilômetros da chegada. O que que isso, na sua opinião, muda a dinâmica das provas?
Speaker BO fenômeno do ataque distante, ele é muito antigo, porque a Kelmi, lembra da equipe Kelmi dos anos 90? Aquela equipe espanhola, né? Camisa verde e branca e tal, e azul, estradinha. A Kelmi inovou tendo o líder e dois, três caras que eram semi-líderes da equipe, e ele sempre despachava esses caras em fugas iniciais, para que quando o seu líder chegasse na última montanha ou na penúltima, ele atacar e ele poder grudar na roda de algum dos semi-líderes deles, que estavam lá já destacados, e aí o cara dava uma força por um quilômetro e dava a seta, o cara seguia e daqui a pouco ele encontrava um outro que estava mais pra frente da fuga e assim ia. Esse é um tipo de fuga que a Kelmy inovou nos anos 90. Ela tinha grandes ciclistas, tinha o Roberto Eras, que ganhou a Vuelta quatro vezes, ela tinha o Chetio Rubiera, que era também da equipe do Lancia Armstrong, durante um período. Depois teve o Oscar Sevilla, esse carinha que correu aí até outro dia, com 45 anos de idade, veio para a Colômbia. Tinha alguns colombianos também. Ou seja, era uma equipe muito interessante, mas isso só funcionava na vuelta. No tour, ela não conseguia nada. Agora, por exemplo, tem uma fuga de gregários lá da bandeirada. Isso tem fotos nas revistas dos anos 70, dos anos 80. O que mudou é a ferocidade, a ferocidade, que este ano, por eu estar fazendo home office, enfim, ter me dedicado mais à observação das corridas, eu fiquei impressionado com a ferocidade dos ataques, o ritmo, pelotões de 30 caras, né? Pelotões de... eu acho que chegou a ter um de 40 ou 45 ciclistas, uma fuga, fuga, um terço do pelotão, E aí tem aquela coisa, mostrar a camisa na televisão, brigar por pontinhos, mesmo naquele início de tour ou de vuelta, onde os pontos pesam um pouco, né? Ganha três pontos numa montanha de categoria quatro. numa etapa plana. Nossa, o cara vai lá e aparece no pódio, né? Sai no jornal, sai no mundo todo, dizendo, ah, o cara da equipe, sei lá, é o Kern Farma, ganhou uma etapa. Na primeira vez que a Kern ganhou, ninguém deu muita bola. No fim, eles ganharam três, né, na vuelta. Mas assim, então eu acho que a filmagem da televisão, desde o início, Ela é um estímulo a mais para as equipes que são frágeis, que não tem condição sequer de ganhar a etapa, mas eles mostram a camisa deles por duas, três, quatro horas às vezes na TV. Então isso muda, isso acelera a corrida. Porque quando eu falo de ferocidade, É porque até um ataque 5, 7, 10, 12 caras, os que não foram, o cara olha lá, não tem nenhum da minha equipe, também voou. Aí ele arrasta o pelotão, acaba encostando, aí sai outro bando de loucos, pá, aí tem os que não estão lá. Então assim, na verdade, a equipe no carro lá atrás, os ciclistas entre eles ali, eles ficam torcendo. pra montar um pelotãozinho lá na frente com representantes de todas as equipes. Porque aí é que sossega.
Speaker AAí todo mundo trabalha junto, porque todo mundo tem uma ficha nesse jogo. E aí não tem um risco.
Speaker BExato. E a ficha pode ser uma ficha besta. É ganhar três pontos numa chegada de montanha categoria quatro. Só pra ter o gostinho de subir no pódio lá. da etapa dois do tour. Ah, que legal. Bom, quando vai chegando lá pra frente, na décima quinta etapa, já vários caras abandonaram. Vários desses fugitivos de primeira hora já estão podres. Podres. Já não aguentam mais aquela brutalidade inicial. Aí a corrida vai ficando mais, digamos assim, administrável, né?
Speaker AAgora, o que faz um ciclista como o Pogacar sobreviver, e o que a gente viu nesse último fim de semana, depois de ter feito o Mundial e feito força, porque não estava ali, como disse o Nicolas no Radio, não era uma corridinha de bairro, eram simplesmente os melhores ciclistas do mundo, ele atacou forte a 100 km e manteve ali os 40 segundos, um minuto, absolutamente sob controle. E uma semana depois, duas semanas depois, vem e entra numa prova chata, meio belga de chuva, dura. e também vai embora. Só a especulação de qual é a mágica, sim. E estamos aqui falando mágica do conjunto de fatores, não estamos fazendo nenhuma ilação, porque não há nenhuma evidência disso, de uso de substância banida ou nada disso.
Speaker BNão. Essa coisa assim, a gente, como disse uma vez um cara criticamente a mim, e eu fiquei com ódio na hora, mas ele tinha razão, não se faz exame de doping sentado no sofá, né? Eu sou assim, o cara pode dar o maior espetáculo, eu vou criticar depois que ele for pego, se for pego, mas enfim, não tem nenhuma evidência disso. O que eu acho, viu, Alvaro, tirando... Além de tudo que a gente falou agora há pouco sobre o Mano Perfeito, tudo encaixando, na minha cabeça ele tá naquela... no flow, né? Ele tá numa pilha mental. de canibal, que é o apelido do Eddie Merckx, né? Eterno. Ele tá querendo ganhar. Tá com as pernas, né? Aquela prova, o Giro d'Elemilia, que ele ganhou agora, ontem, anteontem, sei lá, que é um circuito naquele cole de San Luca, em Bolonha, que o Roglic já ganhou ali algumas vezes, inclusive a etapa do Giro d'Italia e tal, aquela subida é um absurdo de dura. Ela é curta, acho que é dois quilômetros, alguma coisa do gênero, é subida de clássica, não é uma subida pra ganhar o Giro d'Italia. Ela destrói as pernas, chega a 19%. E não nos esquecendo que subir aquilo ali num Grand Tour, onde a coisa é mais administrada, é uma coisa. Subir aquilo ali numa prova de um dia, onde vai todo mundo à morte, porque é só um dia. Não dá pra dizer, não, eu já vou chegar em décimo segundo, só não perder o tempo, que tá bom. Não, ali só vale ganhar. Então... Ele tá no flow, a cabeça dele deve tá num nível de pilhação espetacular, e muita vontade de ganhar, de fazer história. E ele, se eu não me engano, vai ganhar sábado agora no giro de Lombardia. Eu não sei se eu te falei, ano passado eu fui visitar meu filho que mora na Itália, e fui passear de carro pela estrada do giro de Lombardia. Meu amigo, aquilo é duro demais. Não nos esquecendo que são 260 quilômetros de corrida, né? Se fizesse uma volta ali em volta do lago de Como já seria de arrebentar as pernas. Um letapezinho, um legiro. Agora, 260 quilômetros, aí tu chega a Madonna del Guisalo, onde eu fui lá visitar o museu e tudo mais. O muro de Sormano, amigo, E aí Pé. Eu perdi o fôlego. Tudo bem que eu tô fora de forma, gordo e tudo. Mas eu perdi o fôlego igual a pé. Você, assim, olhar aquilo lá do alto de uma das rampas, ele vai subir isso aqui de bicicleta.
Speaker AA 35 por hora.
Speaker BÉ um passeio, né? Então, assim, eu acho que ele vai ganhar. E torço pra que ganhe. Eu torço que ele empate o recorde do Fausto Coppi. São cinco vitórias. Ele merece, né? Eu sou fã de carteirinha desse moleque. Até porque ele é simpático, ele é espirituoso, ele é sorridente quando ganha, quando perde. Ele é um cara legal para o ciclismo. Tem uma ética profissional muito grande. Eu não gostava do Peter Sagan. Eu achava ele um palhaço. Esse moleque não. Esse moleque corre para ganhar corrida, todas as corridas. E assim, na medida, sabe? Não é palhaçada. Não é exibição.
Speaker AÉ, porque comparando, assim, comparando o que não pode ser comparado com o Eddie Merckx, o Eddie Merckx era marrento, né? Ele não era um cara simpático, ele não era querido, acho que é uma palavra forte, porque nenhum atleta profissional pode ser querido dos seus oponentes. Mas é o que você falou, o Pogacar junta Além da competência, do pensamento estratégico, o comportamento público dele no pelotão e fora do pelotão é inatacável. Ele brinca no limite de ser bobo, mas não é bobo. faz lá as coisas dele de rede social. Me lembra se tem alguém que junta essas características todas de motor e de cabeça.
Speaker BNão, nunca vi igual. Até porque a simpatia dele, ele sobe no pódio histórico. A gente não pode esquecer também, vamos lá, nós dois que estamos na fronteira dos 60, eu um pouquinho mais, você um pouquinho menos, A gente vem de uma geração mais dura, né? Pensa nos anos 70. As pessoas não eram tão risonhas como são hoje. Os atletas eram muito mais casca grossa um contra o outro, não tinha amizade. Nós vimos no tênis, por exemplo, esses três monstros recentes, né? o suíço, o espanhol e o sérvio, eles eram amigos fora da quadra. Porra, se pegar Ed Merckx, Roger de Vlaemink, Bernard Hinault ou Fred Martens, pra ficar três belgas, os caras se odiavam, se criticavam abertamente na imprensa. A imprensa, obviamente, tacava gasolina na fogueira. E eram tempos assim, não tinha... o representante de imprensa, não comenta isso, não publica isso, que nada, deixa falar. E era uma maravilha. Por exemplo, na Bélgica, você tinha jornais totalmente anti-Marx, lá do coração dos Flandres. As pessoas não gostavam do Ed Merckx. Por quê? Porque ele era da região de Bruxelas. Ele era quase vizinho da região do Remco, Venepou. Esqueci o nome daquela região. Não era em Burgo. Enfim. Como é da região de Bruxelas, todo mundo falava francês e falava o flamengo. Roger de Vlaemink não dava entrevista em francês. Acabou. Era horrível pra mídia da Valônia, da mídia de Bruxelas, por exemplo. Porque eles queriam falar em francês, porque era o idioma diplomático internacional, inclusive. Era o francês, não era o inglês. Outro dia, o Marc Madiot passou um pouco de vergonha, dizendo assim, eu não me recuso a falar inglês. O idioma do ciclismo é o francês. Parou no tempo, né?
Speaker AAgora falando em parar do tempo, não podemos esquecer do Mathieu Van Der Poel, que também tem um motor estupendo, mas seja no mundial o comportamento dele, por outro lado, Karim Boa, campeão mundial de gravel da UCI, que é uma coisa que tem algumas asteriscos aí nessa história, mas também atacou com imponência. Mas na hora que você coloca ele no Mundial, ele sequer tentou para valer e ir buscar o Pogacar.
Speaker BÉ, mas vamos lá. Você quer ser humano correndo com o marciano, né? Não dá. O circuito lá, o circuito... Vamos lá, o Vanderpool, ano passado, ele foi campeão mundial naquele circuito ignorantesimo de Glasgow, né? Esse ano ele foi terceiro colocado nesse duríssimo de Zurich. Não dá pra querer tudo, né? O cara, ele não foi protagonista esse ano. Ele foi se defendendo, pulando em rodas. Porque contra aquele Pogac, ele não tinha muito jeito, né? Equipe fraca da Holanda, cá entre nós, né? A Holanda tá numa safra meio fraquinha, né? De ciclistas de estrada. Pra chegar lá no fundo da prova, com um grupo que leva o seu líder, né? A Bélgica tá muito melhor nesse sentido. Mas, foi um circuito esse ano, e um circuito ano passado, de desgaste. Em francês se fala usura, né? Que é, assim, larga cem. Os caras que estão lá na frente não é porque eles atacaram, é porque o pelotão vai esvaziando, vai esvaziando, vai esvaziando, vai esvaziando. E daqui a pouco tem poucos e você nem percebe, mas é que ficou pra trás. E aí começam a ter os ataques entre os sobreviventes. mas não tinha muito o que fazer. É o tipo do mundial onde chega todo mundo muito arrebentado no final e o conceito de espetáculo tem que ser visto de uma outra forma, o conceito de protagonismo tem que ser visto de outra forma. Aquele elemento que está superlativo, que foi Van Der Poel ano passado, que foi Pogacar esse ano, ele aqui com quilometragens de exuberância diferentes. Os que vêm atrás, pensa no passado, quem estava perseguindo o Van Der Poel? Van Aert, segundo, Pogacar, que fez bronze, e Pedersen. Porra, tu olhava as imagens, se arrastando, se arrastando. E eu, belgicano... de carteirinho, torcendo para os três encostarem e o Van Aert ganhar no sprint. Dizendo a mesma coisa. O Pogacar chegou inteiro, lá atrás os caras vindo no tipo, puta, acaba logo, pelo amor de Deus. Aí o Brian, né? Atacou, ninguém esperava, ninguém foi atrás porque não tinham perna. O australiano foi lá, O'Connor, Brian O'Connor, né?
Speaker ABen O'Connor.
Speaker BBen O'Connor.
Speaker AInclusive, é um ciclista que vale, assim, olhando um pouquinho mais até a série da Netflix, é uma pessoa que claramente não tem cabeça. É engraçado ele ter um assento numa equipe World Tour. porque é uma pessoa fraca de cabeça, teve aí o oportunismo dele positivo na Vuelta, mas que você via que não tinha a menor chance. E ele ter o senso de oportunidade, depois da Vuelta, de se posicionar e levar o Mundial foi uma surpresa, uma zebra quase, de certa forma.
Speaker BTotalmente. Inclusive, eu concordo plenamente. A gente vendo ele naquela Netflix lá, Ele não combina minimamente com a equipe, porque a equipe francesa geralmente é aquilo que a gente vê, pura emoção. Deixa ele pra trás e aí ele chega e joga e tal. E ele fala francês fluentemente, ainda bem. Mas essa volta milagrosa dele, que ele chegou em segundo, terminou em segundo.
Speaker ADerretendo lentamente.
Speaker BLentamente, é. Ele construiu um bloco de gelo naquela etapa que ele tava em fuga na matinal. Ninguém... Ah, ele tá na frente? Deixa pra lá, não vai dar nada esse cara. Ele construiu uma barra de gelo, ganhou a etapa, vissou a camisa vermelha, ninguém, deu muita bola e a guia, ela foi derretendo, derretendo, derretendo até o finzinho. Mas foi a mesma coisa que aconteceu no passado com o simpático Sepp Kuss. Ele pegou a camisa vermelha porque ele atacou de longe junto com um pelotãozinho. Ele tava na fuga olhando pra trás, né? Quando é que vai chegar o Hobbit? Quando é que vai chegar o Vingegaard? Não chegaram. Ele, pumba, vermelhão, depois, bom, agora eu quero, gostei da ideia. E os caras meio que tentando tirar a camisa dele, principalmente o Hobbit, e não tiraram. Então são aqueles... No caso do nosso amigo aqui, nem ganhou, ele ficou em segundo, né? Mas, aliás, que vergonha o Sepp Kuss esse ano na vuelta, né? Todo mundo esperava que ele fosse brigar pelo bicampeonato e... Apagado.
Speaker AEu acho que lembrando do que a gente está vendo isso do Pogacar e lembrando da finada jumbovismo que virou vismo lisa bike, o que era uma equipe que encaixou tudo, apesar de ter tido bateções de cabeça em rede mundial de televisão, mas brincavam pela força da equipe, pela organização da equipe, pela formação que tinha com o Roglic ainda lá, com o Sepp Kuss, com o Van Aert voando. Desencaixou tudo esse ano a equipe não fez nada. Estava ali sobrevivendo quase indo para o pelotão ali da Ineos de coadjuvante.
Speaker BTotalmente. E aí a coisa do ciclismo né. A queda a lesão são fatores complicados que desmontam toda uma estratégia. A equipe virou uma equipe B esse ano. Acho que a única clássica, ela teve vitórias em provas, vamos chamar de semi-clássicas. A Paris Tours, com esse excelente Laporte, Christophe Laporte. O Volta van Aerte ganhou a Courne-Bruxelles-Courne, que faz parte do fim de semana de abertura da Bélgica, que é uma semi-clássica relevante. Aí depois veio o Tombo, Tombo atrás de Tombo. Infelizmente ele caiu naquele tamboruroso, que quando eu vi eu falei, ai Jesus, eu já vi isso acontecer com o Johan Museeu, quando ele caiu na Paris Roubaix e infeccionou.
Speaker ASim.
Speaker BE ele bateu de joelho, não sei se você lembra, uma encosta de montanha com pedras todas irregulares e chuva, aquilo tinha limo, e ele meteu o joelho numa quina lá que ele gemia de dor. Então, assim, eu falei, meu Deus, leva esse menino logo pro hospital, pelo amor de Deus, né? Porque o Yohan Muzão quase amputou a perna, foi, teve uma septicemia, foi um show de horrores, de barbeiragens, isso em 98, se eu não tô enganado.
Speaker AE quando voltou a Roubaix, teve a cena icônica dele cruzando, esticando a perna, apontando a perna, que sobreviveu.
Speaker BIsso.
Speaker AAgora.
Speaker BExato.
Speaker AO ciclismo segue e a gente tem ciclocross e Mathieu Van Der Poel está chegando acelerado pelo que essa prova meio esquisita do Mundial de Gravel que foi como disse o Leandro foi mais um super super cross do que um gravel é um ciclocross um super ciclocross e pelo jeito Mathieu Van Der Poel vai passear e carimbar mais um título mundial a caminho de um recorde.
Speaker BExato. visivelmente o Van Aert, pra quem não sabe ou não lembra, os dois competem desde a categoria Cadete, como se diz em francês, lá na Bélgica e na Holanda, que é o abaixo do Júnior. Aqui no Brasil seria o Juvenil da minha época, pelo menos. Então assim eles competem nos campeonatos regionais e mundiais desde aquela época intercalando. Num dado momento o Van Aert ele teve três vitórias contra uma. Isso na elite já do Van Der Poel mas aí o Van Der Poel engatou o turbo e está com 5 a 3 agora. Só que ele já declarou o Van Der Poel que ele quer igualar ou ultrapassar o recorde de títulos mundiais do ciclocross. E quem é o recordista? Erick de Vlaemink, irmão do grande Roger de Vlaemink, que é depois o Eddie Merckx, o maior vencedor de clássicas da história. E o Erick de Vlaemink era um cara que ele não... era um bom ciclista de estrada, bom, mas nunca ganhou nada assim de espetacular. Mas no ciclocross, sete títulos mundiais. E eram tempos diferentes. Os circuitos de ciclocross eram muito mais longos. Eram sempre feitos em fazendas. E não tinha nada de artificial como temos hoje em dia. Escadaria artificial, rampas artificiais, que eu particularmente não gosto. Eu acho mais legal uma coisa mais orgânica. Mas, não. Por conta das câmeras de TV, eles querem fazer em um lugar super... super pequenininho, fazer um circuito que parece um caminho de rato, assim. Antigamente não, os caras pegavam os retões, subiam paredes dentro de uma fazenda, trilhas, era um negócio bruto. Atravessava rio. Piscarata nas costas atravessando o rio. Era um negócio sensacional. E Erick de Vlamingham sete vezes. Olha, o Vanderpool, ele não tem rival. Não tem rival, assim. Ele é tão melhor, e eu acho que agora, na minha opinião, que o Van Aert, ele tá psicologicamente muito fragilizado. Porque até quando ele esteve muito bem, há dois anos atrás, ele perdeu do Vanderpool.
Speaker AQue foi genial, inclusive, aquela prova, assim, os dois batendo o guidom até... Mas, assim, duelo de gigante, Transformers.
Speaker BFoi. E foi. E, assim, se eu pudesse... Falar com o Vanerte, eu ia dizer pra ele assim, para de deixar o outro arrancar primeiro, arranca você primeiro que você não perde dele. Todas as derrotas, se você prestar atenção, deles dois, mano a mano, o Vanerte segura, segura, segura, quando o Vanderpool ataca, ele não tem tempo de recuperação, e depois da linha ele ultrapassa, porque ele tem uma velocidade final muito maior. O Van Aert ganha sprint de pelotão em Tour de France. Van Der Poel não. O Van Der Poel não tem o mesmo sprint. Agora, depois de uma prova duríssima, dois a dois, aí ele vai. Mas ele não pode deixar o Van Der Poel arrancar primeiro. E esse último mundial, não o último, porque o último ganhou o Van Der Poel sem concorrência, mas no penúltimo. Ele ganhou em cima do Van Aert pro Van Aert, esperou ele atacar primeiro e aí não conseguiu passar mais. Mas na minha visão, o Van Aert, Ele declarou agora, duas, três semanas atrás, depois que se recuperou do tombão da vuelta, que ele ia fazer mais ciclocross por conta que a temporada dele foi amputada e ele tá sentindo vontade de competição. Então, é capaz que nós vejamos os dois com mais fogo, com mais pegada no ciclocross esse ano. Tomara. Um buscando a recuperação psicológica e o outro buscando empatar um título, um recorde, que não tá longe. Ganha mais dois... Facinho pra ele, né?
Speaker AE de certa forma, os dois chegam menos cansados, né? Porque nenhum dos dois teve um ano, assim, teve tombo, teve uma série de coisas, mas nenhum dos dois foi levado ao seu limite na temporada. Porque no primeiro semestre, o Mathieu Van Der Poel nas Clássicas, fazendo o Flanders de Roubaix, mas depois, nas Grandes Voltas, ele estava ali de coadjuvante da UPCI, se colocando para embalar sprint para o sprintador dele. E o Van Aert, parece que depois que ele teve filho e ganhou um contrato vitalício, parece que ele ganhou a aposentadoria em vida. Ele está ali cumprindo, assinando jersey, dando autógrafo, fazendo o passeio de Kermesse. Mas é engraçado, o instinto matador dele de 2022, 21, 22, parece que sumiu, né?
Speaker BÉ, esse ano, se tu pensar, ele teve duas lesões por queda muito sérias, né? A primeira, pneumotórax, quebrou tudo. Então, ele perdeu a primavera e o verão, né? Porque ele não tinha condição de correr o Tour de France daquele jeito. Ele veio muito bem para a voelta, mas ganhou três etapas, estava liderando duas classificações, vestiu a vermelha, estava tendo uma voelta exuberante, e aí, pumba! Uma queda com infecção no joelho. Acabou com o Mundial, acabou com as clássicas do World Tour do fim de verão e início de outono. Então, um grau de prejuízo, por uma temporada, não dá nem pra comentar. Eu sou muito crítico ao Van Aert nas temporadas anteriores. Ele teve alguns anos onde pisou na bola demais, vamos chamar assim. de erros mesmo, de posicionamento na corrida, sei lá. Agora esse ano realmente é uma pena monstruosa o que aconteceu com ele, porque ele perdeu a semana santa dele, né?
Speaker ASim.
Speaker BQue é Flandres e Roubaix. Aí o outro ganhou, pra acabar de destruir a cabeça dele, né? E voltou a pedalar direito quando? Junho, maio tava nhaquinhaque, se preparou bem, vem pra volta bem, e perde o Mundial, que era um Mundial também de sonho pra ele, junto com o Vanderpool, também ia ficar no sonho, porque não ia conseguir nada em cima desse psicopata aí, né? Você vê o Remco, que tava com as pernas maravilhosas, 5º lugar, disputou ali um sprint num grupinho de 4 ou 5, não tinha pra ninguém mesmo. Mas assim, eu torço muito pra que o Van Aert se repere, que essa mordomia de contrato vitalício não vingue, não mexa com a cabeça dele. Está bem mexida. Está bem mexida.
Speaker AE ouvindo aqui, pensando na nossa conversa, Blanco, é uma frase que me vem à cabeça, de que vencer é um hábito, perder também. Então acho que quando você começa a perder, você se resigna com a derrota. E quando você começa a ganhar, você acha que você merece mais. Então, aí abre a boca de quem vence, vencer mais, quem perde, perde mais. Porque você fala, nossa, eu me machuquei, nossa, eu tô com azar esse ano, nossa, não sei o que lá. Então, aquela diferença de 10 watts a mais e o batimento passar de 220, não vai. A cabeça não liga essa camada extra. Enquanto que o outro já tá ali.
Speaker BEmbalado, Essa coisa que você falou agora, ela é assustadoramente genial. Perder é um hábito, torna-se um hábito. Isso vale pra gente, eu e tu aqui, como a nossa história de executivo, os empreendedores, né? Dá uma tacada, tiro na água. Não, agora eu vou dar uma tacada, tirar na água. Daqui a pouco tu olha pra trás na tua carreira, vence, vence, vence, perde, perde, perde, perde. Caraca, eu não sou mais aquele craque que eu achava, que o mercado achava. É a mesma coisa. E o Van Aert está nessa. Motivos diferentes. Ah, coitadinho, esse ano foram as quedas. Beleza, intencionável. Ano passado teve queda. Não muita. Também nunca. Ele tem um monumento, aquela Milano San Remo de 2020. O outro já colecionou. Roubaix, Ronde, já ganhou um monte de outras coisas. Então, a gente percebe uma certa... Um certo padrão. Eu não sei se eu já comentei contigo. Na Bélgica, eles estão começando, já faz um ano ou dois, que estão chamando de polidor belga.
Speaker AMaldade.
Speaker BNuma referência ao Raimond Polidor. o eterno segundo, como se chama na... Na história do ciclismo, ele era seguidamente o segundo colocado para o grande Jacques-Henri Quétil, francês, que venceu o Tour de France cinco vezes, o Giro de Itália duas vezes e a Vuelta a Espanha uma vez, além da Liège-Bastogne-Liège. O Jacques-Henri Quétil foi uma figura fenomenal depois do Fausto Coppi e o tal do Raimundo Pulidor era o eterno segundo dele. Nunca ganhou o Tour de França, nunca vestiu a camisa amarela, inclusive, e por acaso é o avô do Mathieu van der Poel. E o que que acontece com o nosso querido Van Aert? Depois de 2020, onde ele ganhou a Strade Bianche, ganhou a Milan San Remo e fez um festival de etapas no Tour de France, mas ele só passou a andar bem no Tour de France. Ele não ganhou mais clássica. Então, todo mundo chama... E ele perde consistentemente grandes provas pro Mathieu. Então, vira essa história do... Começou a virar o eterno segundo, né? O que não é legal pra cabeça dele.
Speaker ADallai Blanco, uma atualização sempre divertida e rica e generosa sua aqui com os nossos ouvintes, na sua terceira de várias aparições que você vem aqui. A gente começou com um caminho e, da boa conversa, a gente foi indo para vários, meio que fazendo um pré-balanço no oficial. de 2024, ainda em outubro. Mas também essa temporada de estrada está praticamente acabando. Um monte de alegria. E começa tudo de novo. Isso que é divertido e apaixonante de qualquer esporte, do ciclismo especialmente. Porque o Renko teve um bom segundo semestre. Como é que será que ele larga para o ano que vem? O Pogacar, como é que ele, se pudesse, ele congela tudo, assim. Todas as variáveis congela. Aquela brincadeira de criança. Porque está bom. E o que ainda tem para acontecer? Porque a fila sempre anda.
Speaker BMaravilha, maravilha. Nesses meses de frio lá na Europa, a gente tem história pra contar do passado, a gente pode se divertir aqui.
Speaker AVamos sem dúvida, até porque a gente falou e precisamos fazer, da sua autoridade dos clássicos e dos ídolos das clássicas do ciclismo. Blanco, obrigado mais uma vez e a gente se vê daqui a pouco numa outra conversa. Que tal ter um pôster com a arte desse episódio? As ilustrações do Woodson Malta podem decorar sua casa! Entre em contato com a gente e saiba mais!